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Fazendeiro do ar

Livro Rubem Braga Terminei a leitura da biografia de Rubem Braga escrita por Marco Antonio de Carvalho. Definitiva. Deve ser lida por todo brasileiro interessado em saber como foi construído este país no século passado através das venturas e desventuras de um homem avesso a todo tipo de dogmatismo e autoritarismo. E que fez da crônica seu espaço de liberdade.

O livro de Carvalho é rigoroso. Resultado de mais de uma década de pesquisa, 267 entrevistas e a visitação aos lugares onde Braga viveu e trabalhou. Mas não se aflijam. O levantamento minucioso não se traduz em excessos empolados do tipo acadêmico nas 610 páginas. Nem faz monótona a leitura.

O grande mérito de Carvalho é o texto de cronista. Leve. Capaz de contar a vida privada de Rubem Braga, os fatos saborosos da memória afetiva, incluído o anedotário que cerca a memória do biografado e ao mesmo tempo situá-lo na história.

Braga viveu os dias de ouro do Rio de Janeiro. Confundiu vida literária e boêmia. Amou todas as mulheres, entre elas Tônia Carrero, Danuza Leão, Noelza Guimarães. Nem sempre foi correspondido. Dividiu seu whisky com amigos geniais como Otto Lara Resende, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos. Recebia com freqüência autores de outras cidades, entre eles o nosso Dalton Trevisan.

Os desafetos também foram muitos. Mário de Andrade, Otto Maria Carpeaux, a intelectualidade católica, do arcebispo Leme a Alceu de Amoroso Lima. Pelos adversários se percebe que foi uma vida intelectual riquíssima.

O livro de Carvalho não se resume aos fatos da vida de Braga. Os situa sob as circunstâncias da história e da política para contar a vida de um jornalista e escritor em luta permanente contra a veia autoritária que sempre predominou neste nosso Brasil de Vargas, presidentes fardados e candidatos a déspotas.

Houve um tempo em que sonhei coisas – não foi ser eleito senador federal nem nada, eram coisas humildes e vagabundas que entretanto não fiz, nem com certeza farei. Era, por exemplo, arrumar um barco de uns 15, 20 metros de comprido, com motor e vela, e sair tocando devagar por toda a costa do Brasil, parando para pescar, vendendo banana ou comprando fumo de rolo, não sei, me demorando em todo portinho simpático — Barra de São João, Piúma, Regência, Conceição da Barra, Serinhaém, Turiaçu, Curuçá, Ubatuba, Garopaba — ir indo ao léu, vendo as coisas, conversando com as pessoas — e fazer um livro tão simples, tão bom, que até talvez fosse melhor não fazer livro nenhum, apenas ir vivendo devagar a vida lenta dos mares do Brasil, tomando a cachacinha de cada lugar, sem pressa e com respeito. Isso devia ser bom, talvez eu me tornasse conhecido como um homem direito.

Rubem Braga

Rubem Braga: um Cigano Fazendeiro do Ar
Marco Antonio de Carvalho
Editora Globo
Número de páginas: 612
R$ 44,00

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