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Terra de cego

O Rubico Camargo, do PPS, enviou este artigo da Dora Kramer, publicado no “Estado de São Paulo” no dia 1 de abril. É uma boa análise do momento político e de nossos eternos costumes. Vale a leitura.

De um lado, tome-se a submissão de resultados dos partidos aliados; de outro, observe-se a oposição sem conseqüência dos adversários; junte-se a isso a omissão de gente outrora representativa da sociedade e fica fácil compreender porque o presidente Luiz Inácio da Silva trata a tudo e a todos com suprema arrogância.

Interpreta a lei à luz de sua conveniência, altera os fatos conforme seu interesse, ataca aos desaforos todo e qualquer contraditório, substitui o debate pela agressão verbal, enerva-se se os Poderes Legislativo e Judiciário não se comportam como linhas auxiliares de seus projetos e só convive bem com a obediência e a reverência.


As vozes que se poderiam fazer autorizadas para materializar um contraponto a Lula optaram pelo silêncio. Alguns, como os movimentos sociais, o sindicalismo e os estudantes, renderam-se à cooptação. Outros, como a universidade e o mundo da cultura, abriram mão do exercício da crítica – por amor a verbas federais, preguiça ou intimidação ideológica.

Os políticos certamente o fazem por cálculo. Os oficialmente aliados ficam ali, achando tudo uma maravilha enquanto podem desfrutar de uns nacos de poder que Lula concede para deleite da fisiologia.

Os registrados em cartório da oposição não querem “bater de frente” com a popularidade de Lula e limitam sua atuação à indignação de microfone.

Não produzem um só fato, como fazia o PT quando estava no outro lado do balcão e, em geral, auxiliava a imprensa nas denúncias dos malfeitos e, nas comissões de inquérito, trabalhava duro nas investigações. Acabava pautando o noticiário.

Hoje ocorre o contrário: a oposição é pautada pela imprensa. Vai e volta ao sabor do que é publicado nos jornais e revistas ou divulgado na televisão.

Dois casos típicos aconteceram recentemente. No ano passado, o Senado (tucanos e democratas incluídos) já se preparava para absolver o então presidente Renan Calheiros com honras de chefe de Estado quando a TV Globo mostrou que os documentos de defesa apresentados – e aceitos – aos senadores eram falsos.

Agora, no episódio do dossiê FHC, embora fosse voz corrente a existência de um “banco de dados” sobre os gastos do governo anterior e vários ministros dissessem abertamente que o Planalto tinha munição para o contra-ataque, o PSDB simplesmente arrumava as malas para desembarcar da CPI dos Cartões.

Não lhe ocorreu investigar e denunciar o dossiê nem se incomodou de ver Fernando Henrique exposto em notinhas aqui e ali como autor de gastos indevidos na Presidência. Quando Veja publicou a história do dossiê, indignou-se.

A indolência é o padrão. Quem ousa pôr alguns pingos em determinados is é apontado como radical ou desviante funcional.

É o exemplo do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio Mello, convidado a “meter o nariz” em outras bandas por registrar o potencial de ilegalidade eleitoral em atos presidenciais.

Quando, e se, alguém resolver dizer ao presidente da República metade do que ele diz a respeito de quem lhe faz doer os calos, aguarde-se: haverá uma enxurrada de críticas à “ofensa” ao símbolo maior da República.

Que o símbolo não se conduza à altura da majestade do cargo não abala nem mesmo aqueles que poderiam ter interesse pragmático em dizer umas verdades, pois terão de enfrentá-lo na próxima eleição presidencial. Não (queira o bom senso) como candidato, mas como cabo eleitoral privilegiado.

O mesmo pragmatismo que fez os candidatos da eleição presidencial de 1989 transformarem José Sarney no saco de pancadas preferencial daquela campanha – por causa da popularidade ladeira abaixo – conduz, com sinal trocado, os atuais postulantes para 2010.

Aécio Neves faz o conciliador, José Serra enfia a cabeça nos afazeres paulistas e os outros ficam igualmente na muda, só que esperando poder contar com as bênçãos do grande personagem mais à frente.

São ações meramente táticas, movidas pelo oportunismo. Nenhum deles vocaliza o que lhes vai à alma.

Aliás, tirando o fato de que uns passaram a achar Lula um gênio depois que se elegeu presidente, alguns viraram discípulos da capacidade dele de transitar incólume no mar de lama e outros o consideram responsável pelos retrocessos na política, mas não dizem isso em público com medo de levar desaforo para casa, ninguém entre os políticos que pretendem governar o País diz o que realmente lhe vai à alma – se é que vai alguma coisa.

Sob a justificativa de que “é cedo” para abrir a sucessão, calam ou tergiversam. Talvez não se dêem conta, mas desse jeito resumem o brasileiro a um objeto de produzir votos, a quem se deve falar apenas quando a eleição chegar e, ainda assim, de acordo com o figurino adequado à conveniência da ocasião.

Enquanto isso, o País fica condenado a ouvir variações em torno de uma nota só. Se Lula reina não é apenas por vontade ou por habilidade de visão. É, sobretudo, porque o Brasil virou terra de cego.

1 Comentário

  1. Estupendo artigo da Dora Kramer. E por que acontece isto ? Em minha modesta opinião porque as ditas autoridades de controle público (Tribunais de Contas, Ministérios Públicos, Parlamenteres) não atuam como podem e devem atuar. A sociedade lhes deu todas as prerrogativas. O povo lhes pagas os maiores salários nação. As leis e as Constituições contem os instrumentos necessários. E ? E quando estes demagogos e estelionatários políticos cometem desvio de contuta denunciados à larga – logo conceituadas como meras “falhas administrativas” pelo lulista de plantão – nenhuma destas ditas autoridades públicas se sente responsável em enquadrá-los como caberia e cabe fazê-lo. Então, o discurso só pode tornar-se arrogante; não há quem ponham um basta em todas essas mazelas ! Pensar que a sociedade brasileira, mesmo a escassamente organizada, vá fazer algo para colocar tais demagogos e estelionatários políticos no seu devido lugar é, no estado atual da consciência política, uma ilusão. Embora tenham instrumentos legais não agem. Porisso o artigo é relevante para chamar a atenção pela milhésima da milhionésima vez de que vamos mal e não há muita esperança pela frente. Os dois organismos que poderiam mudar este país seriam o Judiciário (provocado pelas autoridades e pela sociedade) e a própria sociedade organizada (pelos seus mecanismos de atuação), mas é preciso que passem da anomia à ação. E o que impera é a aniomia e a indiferença. Vamos mal.

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