Uncategorized

Os ricos estão mais famintos

Artigo de Amartya Sem *, publicado no New York Times

A crise dos alimentos que está ameaçando as vidas de milhões de pessoas vai abrandar-se ou se agravará com o passar do tempo? A resposta é: ambas as coisas. A alta recente dos preços dos alimentos foi causada em grande parte por problemas temporários, como seca na Austrália, na Ucrânia e em outros países. Embora a necessidade de vultosas operações de ajuda seja algo da maior urgência, a crise profunda dos dias de hoje deve chegar ao fim.

Para ler o artigo completo, clique no

Entretanto, subjacente a essa crise se encontra um problema fundamental que só poderá intensificar-se, a não ser que nos conscientizemos dele e procuremos solucioná-lo.

É a história de dois povos. Segundo uma versão da história, um país onde os pobres são muito numerosos registra repentinamente uma expansão econômica, mas apenas a metade da população participa dessa nova prosperidade. Os que se beneficiam com ela gastam grande parte da renda recém-adquirida em alimentos e, se a oferta não aumentar com bastante rapidez, os preços poderão disparar. O restante dos pobres agora enfrenta uma alta dos preços dos alimentos, mas não da renda, e começa a morrer de fome. Tragédias como esta ocorrem repetidamente no mundo.

O exemplo mais devastador é a fome no Bengala, em 1943, nos últimos dias do governo britânico na Índia. Os pobres que viviam em centros urbanos experimentaram um aumento acelerado da renda, principalmente em Calcutá, onde os enormes gastos com a guerra contra o Japão provocaram uma explosão que quadruplicou os preços dos alimentos. Os pobres que moravam na zona rural experimentaram esses aumentos vertiginosos dos preços com um aumento mínimo da renda.

Uma equivocada política do governo acentuou essa divisão. As autoridades britânicas tentaram evitar o descontentamento urbano durante a guerra, e o governo passou a adquirir alimentos nas aldeias e a vendê-los nas cidades, a preços altamente subsidiados, numa medida que contribuiu para uma alta ainda maior dos alimentos na zona rural.

Nas aldeias, as pessoas que ganhavam remunerações mínimas começaram a morrer de fome. Na carestia que se seguiu, assim como na esteira dela, morreram de 2 milhões a 3 milhões de pessoas.

Neste momento, discute-se intensamente, como não poderia deixar de ser, a divisão entre a população afluente e a não afluente na economia global, mas os pobres do mundo também estão divididos entre os que registram uma elevada expansão e os que não se beneficiam dela. O rápido crescimento econômico em países como China, Índia e Vietnã tende a aumentar acentuadamente a demanda de alimentos. Evidentemente, isto é excelente em si, e se esses países conseguirem reduzir a desigualdade da divisão interna do crescimento, mesmo os que não são beneficiados comerão muito melhor.

Mas esse crescimento também pressiona os mercados globais de alimentos – às vezes mediante o aumento das importações, outras vezes, por meio de restrições ou proibições das exportações, como ocorreu recentemente em países como Índia, China, Vietnã e Argentina. Os mais particularmente afetados foram os pobres, principalmente na África.

Há também uma versão da história dos dois povos que tem a ver com a alta tecnologia. Produtos agrícolas como milho e soja podem ser usados para produzir o etanol utilizado como combustível automotivo. Portanto, os estômagos dos famintos também precisam competir com os tanques de combustível.

Nesse caso, também influi uma equivocada política governamental. Em 2005, o Congresso americano começou a exigir que se aumentasse o uso do etanol nos veículos. Prevendo um subsídio para a utilização desse produto, a lei criou um florescente mercado de milho nos EUA, mas ao mesmo tempo fez com que recursos agrícolas fossem desviados dos alimentos para a produção do combustível, o que torna ainda mais difícil a concorrência para os estômagos famintos.

O uso do etanol pouco contribui para evitar o aquecimento global e a deterioração ambiental, e, se os políticos americanos permitissem, deveriam ser implementadas com urgência reformas muito claras na política. O uso do etanol poderia ser restringido, em vez de ser incentivado e subsidiado.

O problema global dos alimentos não é provocado por uma tendência de queda da produção mundial, ou da produção de alimentos per capita (o que tem sido muitas vezes afirmado sem muitas evidências). Ele é o resultado da aceleração da demanda. Entretanto, um problema induzido pela demanda também exige a rápida expansão da produção de alimentos, o que pode ser feito mediante uma maior cooperação global.

Embora se deva atribuir ao crescimento populacional apenas uma modesta parcela da crescente demanda de alimentos, ele pode contribuir para o aquecimento global, e, no longo prazo, as mudanças climáticas podem ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento populacional já está diminuindo, e existem provas esmagadoras de que o aumento do número de mulheres capacitadas para exercer funções de responsabilidade (bem como a ampliação da educação para as jovens) poderá rapidamente reduzi-lo ainda mais.

O problema maior é elaborar políticas eficientes para tratar das conseqüências de uma expansão extremamente assimétrica da economia global. Há uma crucial necessidade de reformas nacionais no âmbito da economia em muitos países que apresentam um lento crescimento, mas há também uma grande necessidade de uma maior cooperação e assistência globais. A primeira tarefa consiste em compreender a natureza do problema.

*Amartya Sem, que leciona economia e filosofia em Harvard, recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1998. Mais recentemente, escreveu “Identity and Violence: The Ilusion of Destiny”. Ele escreveu este artigo para o ‘The New York Times’

Comente