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A inflação e os remédios amargos


Enquanto o mundo político se debate entre a agenda chinfrim das eleições municipais e os escândalos nacionais de corrupção, outra questão, mais grave, ocupa cabeças pensantes do país. A inflação ameaça voltar e com ela as conseqüências políticas e sociais indesejáveis de sempre.

O ex-ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter (foto), se diz apreensivo. Para ele, o quadro é de uma inflação que, em grande parte, vem de fora. Seus motivos são internacionais e fora do controle do governo Lula, que só pode tratar dos sintomas.

Os índices rugem. O governo não tem outros remédios a não ser os amargos. A elevação dos juros, a redução do crédito e o corte nos investimentos são os primeiros. Medidas que frustrariam o atual estado de felicidade geral da nação provocado pelo aquecimento da economia.

O combate à inflação deve reduzir o crescimento econômico, impedir a expansão de empregos e cortar o acesso a bens e serviços nunca dantes experimentados por uma larga faixa de brasileiros e brasileiras.

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Segundo Rischbieter, a inflação atual é explicada por motivos interligados, em grande parte internacionais: a elevação dos preços das commodities. Foi alimentada pelo aumento da demanda em países emergentes, mas também por problemas com algumas culturas agrícolas, problemas com a Argentina, conflito entre energia e alimentos nos Estados Unidos, problemas na área de petróleo.

Outro aspecto relevante foi a movimentação dos fundos especulativos, os chamados “fundos hedge”. Quando o dólar começou a arriar, esses recursos migraram para bolsas de commodities, ajudando a acentuar o movimento de alta.

Internamente, alguns fatores vieram se somar ao choque externo. Houve problemas com algumas culturas agrícolas relevantes; a expansão acelerada do crédito na economia. O consumo aumentou via política de transferências de renda e crediário. Depois, permitiu algum aumento na massa salarial. Por outro lado, a apreciação do real ajudou a reduzir o impacto das altas de preços no mercado interno.

O que vem pela frente?

No campo da demanda, redução do mercado interno. Numa ponta, pela corrosão inflacionária sobre salários; na outra pelo maior rigor na concessão de crédito. Em relação ao mercado externo, queda das exportações devido ao câmbio apreciado e à redução do comércio mundial – fruto da crise internacional.

Internacionalmente, possibilidade ou de estabilização ou de queda nos preços das principais commodities devido ao movimento combinado de elevação dos juros internacionais e de recessão mundial à vista Esse quadro dá certo alento, pois permite acreditar em menor pressão inflacionária no segundo semestre.

Mas há fatores soprando contra. Um deles, a questão do câmbio. No momento em que o mercado perceber que o câmbio é insustentável, haverá uma reversão rápida das cotações, pressionando a inflação. Se vier acompanhada de uma queda nos preços internacionais de commodities, o Brasil ganha do lado da inflação, mas acentuar-se-á o desequilíbrio nas contas externas.

Outro ponto são as conseqüências do IGP-M sobre os preços indexados da economia, especialmente tarifas públicas e as dívidas federalizadas dos estados. Em breve os estados começarão a sentir um aperto grande, do lado da dívida e da queda de receita.

O risco maior será a possibilidade de uma indexação nos salários. No fundo, quando se fala em mais aperto fiscal, a idéia por trás é um tranco na economia que reduz o ritmo de crescimento e as demandas por reajustes salariais.

O risco maior – o da indexação ampla – porém, está afastado. Depois de quase 15 anos de estabilidade, não dá mais para falar em memória inflacionária, em reajustes sincronizados e mensais de preços, como ocorreu em outros tempos.

De qualquer modo, o próximo semestre será de riscos inflacionários, ainda.

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