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Lugo assume o Paraguai e seus dilemas

De Janaína Figueiredo, de O Globo

ASSUNÇÃO. O presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, assumirá o poder hoje em cerimônia histórica para o país, depois de 61 anos de hegemonia do Partido Colorado. Lugo, ex-bispo que chega ao governo após meteórica carreira política, terá pela frente o desafio de melhorar as condições de vida dos paraguaios (estima-se que 38% da população vivem abaixo da linha da pobreza), limpar a imagem do país no exterior (leia-se pôr fim à corrupção), resolver delicados problemas sociais (entre eles as invasões de terras, que nos últimos dias se multiplicaram) e, sobretudo, comandar um Gabinete heterogêneo, integrado, entre outros, por um empresário, um padre, um militar da reserva e um dirigente político vinculado ao governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Depois de ter vencido a eleição de abril passado com 766 mil votos, a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol) desembarcará no Palácio de López, sede do governo paraguaio, num clima de incerteza. Nas ruas de Assunção, muitos paraguaios se perguntam como será a convivência entre o Partido Liberal, um dos mais tradicionais do país e principal base política do novo governo, e setores de esquerda. Na visão de analistas locais ouvidos, não será nada fácil.
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– A grande incógnita entre os paraguaios é saber qual será o perfil do novo governo – disse a analista José Maria Costa.

Reforma agrária é um dos grandes desafios

Para Costa, o novo governo deverá encarar temas sensíveis, como a reforma agrária, que poderia provocar fissuras no Gabinete. De fato, as invasões de terras foram duramente criticadas pelos liberais e defendidas por outros setores aliados de Lugo. Nos últimos dois dias, foram invadidas seis fazendas no departamento (estado) de San Pedro. Paralelamente, existem cerca de 67 acampamentos montados por movimentos de camponeses sem terra, que ameaçam realizar novas ocupações. O delicado problema afeta muitos brasileiros, que possuem terras no Paraguai e temem serem vítimas não somente das invasões, mas também da reforma agrária de Lugo. Na primeira página do jornal “La Nación”, de Assunção, foi publicada uma foto de camponeses destruindo a plantação de girassol do brasileiro Angel Brunotte. Não seria o único caso, em várias regiões os camponeses paraguaios estão destruindo plantações, muitas de fazendeiros brasileiros.

A formação do futuro Gabinete foi motivo de polêmica na APC, já que o Partido Liberal não gostou de ter ficado com apenas três ministérios. O assunto gerou discussões entre Lugo e o vice-presidente eleito, o liberal Federico Franco.

– O presidente eleito conseguiu irritar a esquerda e a direita. Todos ficaram insatisfeitos – comentou o analista Alfredo Boccia Paz.

Um dos principais objetivos de Lugo, explicou o analista paraguaio, “foi transmitir sinais de tranqüilidade a setores importantes do país”.

– Por isso, em ministérios chaves, como Agricultura, Fazenda e Defesa, foram designadas pessoas mais conservadoras – disse.

O novo ministro da Fazenda será o ex-colorado Dionisio Borda (que ocupou a mesma pasta no governo do presidente Nicanor Duarte Frutos). O empresário Martín Heisecke foi o escolhido para comandar a pasta de Indústria e Comércio. Já o Ministério da Defesa ficou em mãos do general da reserva Luis Bareiro Spaini. Os liberais Cándido Vera, Efrain Alegre e Blas Llano, foram nomeados como ministros da Agricultura, Obras Públicas e Justiça e Trabalho, respectivamente. A esquerda mais radical será representada por Camilo Suárez, que assumirá como secretário de Emergência Nacional. O dirigente guevarista é um fiel admirador do governo Chávez. O padre Pablino Cáceres será secretário de Ação Social e Esperanza Martínez assumirá como ministra da Saúde.

– Suárez é um homem da esquerda radical, que certamente estará de acordo com questões como as invasões. Por enquanto, Lugo conseguiu manter um equilíbrio entre seus colaboradores, vamos ver como será depois da posse – disse Costa.

Lugo deverá governar sem maioria no Congresso e dependendo do respaldo de setores da oposição, entre eles a ala colorada do general Lino Oviedo, para aprovar os projetos enviados por seu governo.

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