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A cabeça do Brasil está pior que o corpo

De Augusto Nunes

Absorvida pelos preparativos para os Jogos de Pequim, a imprensa brasileira não reservou sequer um canto de página às olimpíadas escolares internacionais disputadas em julho. Melhor assim. Se a performance dos atletas foi de deixar deprimido um passista da escola campeã, o desempenho dos estudantes decerto levaria o país a sentar-se no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho, como um personagem de Nelson Rodrigues. O Brasil que compete com o corpo produziu um fiasco. O Brasil que compete com a cabeça protagonizou um desastre.


Em agosto, o país ganhou três medalhas de ouro. Em julho, ao fim das olimpíadas escolares de Matemática, Química, Física e Biologia, nenhuma das 142 medalhas de ouro enfeitara o peito de algum estudante brazuca. O naufrágio não foi mais espetacular por dois motivos. Primeiro: ocorrem em outros meses as provas de Informática, Astronomia, Ciências Júnior e Astronomia e Astrofísica, das quais o Brasil é freguês. Segundo: o país desertou há dois anos da olimpíada de Geografia, e nunca se inscreveu nas de Lingüística, Filosofia e Ciência da Terra.
Compostas pelos melhores alunos das escolas públicas do 2º grau, as equipes, pequenas, gastaram menos, somadas, do que o ministro Orlando Silva, sozinho, em Pequim. Ponto para a garotada. Em contrapartida, os escolares olímpicos são pinçados num universo bem maior: sobram primeiros da classe em cada disciplina, faltam atletas de alto nível. Ponto para o COB. Ainda inexperiente nas disputas com a cabeça, o Brasil bate ponto nas Olimpíadas esportivas desde 1920. Mas os dirigentes da educação já aprenderam espertezas e truques praticados com bastante maestria pela cartolagem atlética.
O mais freqüente é transformar fracassos em triunfos, como fizeram os sites oficiais escalados para acompanhar, à distância, a performance das equipes enviadas às quatro cidades anfitriãs. Em Madri, segundo o redator eletrônico, os craques da Matemática tiveram “o melhor desempenho da história”: cinco medalhas de prata, uma de bronze e o 16º lugar entre 97 países. É pouco. Ou muito, perto do que conseguiram os outros. Em Budapeste, por exemplo, o time de Química ficou numa medalha de prata e numa de bronze. Quase nada? “Fomos os melhores entre os ibero-americanos”, discorda o site.
“Fomos os melhores entre os latino-americanos”, festejou o site incumbido de registrar as proezas da equipe de Física em Hanói: uma medalha de prata, uma de bronze e duas menções honrosas. Qual foi a posição do Brasil no quadro geral dos 82 concorrentes? “As olimpíadas de Física não divulgam o ranking”, desconversou o redator.
Tampouco as de Biologia, jurou o site vizinho, atento aos duelos que movimentaram 55 países em Mumbai. Pelo silêncio, deduz-se que o Brasil não brilhou nas guerras particulares travadas por latino-americanos e ibero-americanos. Mas, pela primeira vez, um estudante brasileiro ganhou uma medalha de bronze. Vale ouro, claro.
A inexistência de uma política que mereça esse nome acabou institucionalizando a rotina da exclusão. Desde a infância, os filhos do País do Futebol são dissuadidos, pela ausência de estímulos e por carências ancestrais, de praticar outros esportes. A política educacional, na contramão do descaminho esportivo, busca tão neuroticamente a “inclusão” que trocou a qualidade pela quantidade. O que vale é o volume de matrículas. Os professores não ensinam? Os alunos não aprendem? Nada disso importa.

2 Comentários

  1. Quem é esse de augusto nunes???
    parece que o cara é o unico que se preocupa com a educação no pais, mas somente em olimpíada escolar. que m….
    o cara é muito limitado.

  2. A acomodação que vem marcando o comportamento do brasileiro é preocupante, estamos perdendo a competitividade, o espírito de luta. Acorda Brasil!!

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