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Brasileiros vivem o fim do sonho americano

De Lourival Sant’Anna no O Estado de São Paulo

Muitos estão voltando para o Brasil, abalados com a crise econômica
Quando Washington Souza deixou São Vicente, no litoral de São Paulo, seu filho Tiago era um menino de 9 anos. Hoje, é um rapaz de 16. Eles nunca mais se viram. Mas a crise da economia americana vai unir de novo a família. Cozinheiro há sete anos no restaurante Via Brasil, na Rua 46, em Nova York, Washington resolveu voltar para casa: com a crise econômica, o sonho americano se desfez para ele, como para muitos brasileiros – e americanos.

“Não está mais compensando”, diz o piauiense de 50 anos. “Trabalho aqui não se acha nem na construção. Antes, tinha muito.” Muitos brasileiros que trabalhavam na construção civil voltaram para o Brasil depois que a crise, originada no setor imobiliário, paralisou o segmento. O número de alvarás para construções residenciais solicitados em setembro, 817 mil, foi o menor desde janeiro de 1991.
Num sinal da mudança de percepção em relação aos Estados Unidos – que por gerações exerceu enorme magnetismo sobre brasileiros em busca de uma vida melhor -, Washington conta que, antes de a crise se agravar, arrumou emprego num restaurante para Tiago em Nova York, mas o rapaz não quis vir: preferiu ficar para prestar vestibular para informática, diz o pai, que estudou até a oitava série.
O cozinheiro não se arrepende de ter emigrado. Ele ganha US$ 760 por semana, trabalhando de segunda a sábado das 7 horas às 19h e nos domingos até as 13h. Pagando apenas US$ 50 por um quarto no apartamento de um cubano, com vista para a Times Square, cartão-postal nova-iorquino, ele fez formidável pé-de-meia. Depois de uma primeira estada em Nova York, de dois anos e meio, ele construiu sua casa em São Vicente, com R$ 30 mil. Nos últimos sete anos, em que pegou o dólar a R$ 3 e até a R$ 4, juntou R$ 100 mil e investiu numa fazenda de engorda de boi e numa granja em Várzea Grande (PI), sua cidade natal. O negócio, tocado pela irmã, rende-lhe R$ 6 mil líquidos por mês. “Ganho o mesmo aqui que lá”, contabiliza. Ele tem 50 cabeças de gado de corte e 15 mil frangos. “Abasteço quatro cidades da região.”

“No Brasil é bom, porque a mão-de-obra é barata”, explica. “Pago R$ 400 para um empregado por 30 dias”, admira-se, habituado ao salário semanal nos EUA. “Aqui é bom porque o salário é alto, mas, com o dólar fraco, é problema.”

O agravamento da crise – que leva os investidores a vender ações e aplicar em dólares – fortaleceu a moeda americana frente ao real. O dólar fechou a R$ 2,11 na sexta-feira. Mas já esteve em R$ 1,50, obrigando os brasileiros a enviar mais dólares para suas famílias. Agora que a cotação melhorou, faltam empregos e os salários estão mais baixos.

Na lojinha de presentes Búzios, da baiana Marcela Ramos, também na Rua 46 (batizada de Little Brazil), as vendas caíram 10% em relação ao verão passado. Sua freguesia é composta de 60% de brasileiros e 40% de americanos – que também estão consumindo menos. “Tem mais lugares vazios para alugar e mais pessoas fechando seus negócios”, observa Marcela, de 27 anos, há 9 nos EUA.

“Conseguir trabalho não está fácil”, atesta a capixaba Alessandra Marques, de 31 anos, que fez administração na Universidade Estadual de New Jersey. Ela trabalha meio período numa clínica de beleza e ganha US$ 400 por semana. Antes da crise, a clínica faturava de US$ 10 mil a US$ 15 mil por mês. Hoje, fatura US$ 4,5 mil. Antes, 40% das clientes eram brasileiras. Elas desapareceram. “Nosso ramo não é de primeira necessidade. É a primeira despesa que as pessoas cortam.”

Seu marido, o americano Frank Chavarrie, de 47 anos, ganhava US$ 125 mil por ano na empresa de processamento de dados ADP, que tinha muitos clientes no World Trade Center. Depois do atentado de 11 de setembro de 2001, foi demitido. Hoje, ganha menos da metade – US$ 54 mil – no banco suíço UBS. Em crise, o banco ofereceu um plano de demissão voluntária com um ano e meio de salário e informou que aqueles que quiserem continuar na empresa não receberão indenização em caso de demissão. Depois de 10 anos nos EUA, Alessandra está voltando para Vila Velha (ES), com os dois filhos, de 9 e de 5 anos.

De um lado, diminuem os salários e as chances de emprego; de outro, aumentam os gastos domésticos – a começar pelas prestações da casa própria. Os juros anuais do financiamento de 30 anos do apartamento de dois quartos de Alessandra subiram de 3,56% para 7,75%, e as prestações mensais, de US$ 1.095 para US$ 1.319. Quando o adquiriu, em 2002, o apartamento valia US$ 73 mil; no ano passado, no auge da bolha imobiliária, seu preço saltara para US$ 295 mil. Agora, vale US$ 215 mil. Ela pretende alugá-lo por US$ 1.800, e espera que dê para cobrir a prestação e as taxas, que são mais de US$ 400.

Ao lado das hipotecas, subiu também o preço de alimentos e gasolina – os itens que têm puxado a inflação nos EUA. O curitibano Jean Frison, gerente da Churrascaria Plataforma, sabe os índices de cor: de janeiro de 2007 para cá, a carne e o arroz aumentaram 30%; o leite, 35%; e a lata de 18,9 litros de óleo de milho de cozinha dobrou de US$ 35 para US$ 70. Antes, o arroz era servido em todas as mesas. Agora, só se o cliente pedir. Os fornecedores passaram a cobrar entre US$ 5 e US$ 30 de frete (antes incluído), por causa do aumento da gasolina. Mesmo assim, a churrascaria só aumentou o preço do rodízio de US$ 51,95 para US$ 55,95. “Se repassássemos mais, ficaríamos sem clientes”, explica.
O movimento diminuiu de segunda a quinta-feira, com a perda de clientes que trabalham no mercado financeiro, atingido em cheio pela crise. Calcula-se que eles representam 5% dos trabalhadores de Nova York, mas respondem por cerca de 25% da receita da cidade.
O paulistano João de Matos, dono da Plataforma, perde numa ponta mas ganha noutra. Seu negócio principal é a agência de viagens BACC, com seis filiais nos EUA e faturamento anual de US$ 100 milhões. Ele vende 50 mil passagens por ano para o Brasil. Muitos estão comprando bilhetes só de ida.

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