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Ganhadores do Prêmio Nobel esperam recessão longa

Sergio Lamucci no Valor Econômico

O agravamento da crise financeira deve produzir estragos consideráveis nas taxas de crescimento dos Estados Unidos e da Europa nos próximos anos, mesmo num cenário em que governos e bancos centrais adotem medidas generosas de estímulo fiscal e monetário, disseram ontem dois vencedores do Nobel de Economia que participaram do Encontro Latino Americano da Sociedade Econométrica (Lames, na sigla em inglês) e da Associação de Economia da América Latina e do Caribe (Lacea).

Para Michael Spence, da Universidade de Stanford, a recessão nos EUA e na Europa pode levar de dois a três anos, uma vez que o processo em curso de desalavancagem (redução dos níveis de crédito e endividamento) vai levar um tempo considerável para terminar. Já Daniel McFadden, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, disse que os EUA poderão ter de enfrentar até uma década de crescimento abaixo da média.

Os dois vêem um cenário mais positivo para o Brasil e outros países em desenvolvimento, embora o cenário externo mais adverso deva levar a uma inevitável desaceleração do ritmo de expansão da atividade. O evento foi organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

Vencedor do Nobel em 2001, Spence está preocupado com a deflação dos preços de ativos atualmente em curso, sem correspondência com os fundamentos da economia. Segundo ele, isso provoca uma grande destruição de riqueza e tem levado também a uma saída de capitais de países emergentes, que tem como objetivo cobrir prejuízos nos países desenvolvidos. Esse movimento ajuda a explicar a desvalorização do câmbio ocorrida em vários emergentes, como o Brasil. Nos países desenvolvidos, medidas fiscais e monetárias expansionistas são necessárias e fundamentais para tentar normalizar as condições do mercado de crédito e estimular a atividade econômica.

Nobel em 2000, McFadden se disse apreensivo por não ver nenhum “motor óbvio” que possa trazer a economia americana de volta para os trilhos. Os consumidores, por exemplo, estão atolados em problemas de crédito, não devendo ter força para estimular a demanda. Nesse cenário, o país pode amargar um período longo, talvez uma década, de crescimento abaixo do normal, afirmou ele.

McFadden disse ter “algum medo” de que os EUA enfrentem uma recessão longa, quadro que, se concretizado, deve ser combatido com um grande pacote de estímulo fiscal. “Um meio de atacar essa situação é por meio de investimentos em larga escala em infra-estrutura, pesquisa e desenvolvimento e educação, e em alguma medida, em áreas como transporte.”

Segundo McFadden, embora o espaço para o Fed estimular a economia por meio de corte de juros seja pequeno, já que a taxa básica está em 1% ao ano, ainda há outras ferramentas à disposição da autoridade monetária, como a injeção de liquidez no mercado e a compra de commercial papers (títulos de curto prazo emitidos pelas empresas) – estratégias que já vêm sendo utilizadas pelo Fed.

Também presente ao evento, o presidente do Conselho de Assessores Econômicos do governo Bush, Edward Lazear, não quis fazer uma previsão para a duração da recessão nos EUA. Ele reconheceu que o país deve passar por alguns trimestres difíceis, mas acredita que ainda no começo do mandato do presidente eleito Barack Obama a economia poderá reagir.

Para Lazear, as medidas de capitalização do sistema financeiro feitas recentemente pelo governo, em troca de participação acionária, deverão começar a fazer efeito, assim como as ações do Fed, que desde o ano passado tem injetado liquidez no mercado. O economista afirmou ainda que a administração Bush já adotou medidas de estímulo fiscal, como os US$ 150 bilhões gastos em fevereiro, além do plano de resgate do sistema financeiro de US$ 700 bilhões, dos quais metade deve ficar para o governo Obama. “Você pode discutir a forma de apoio, mas é muito dinheiro”, afirmou ele.

Ao falar do Brasil e outros emergentes, Spence disse que haverá indiscutivelmente uma desaceleração do crescimento, mas aparentemente não haverá uma recessão. O crescimento da Índia pode cair de 9% para 4% a 6%, o que causará uma sensação de desconforto nos indianos, mas não é exatamente o que se considera uma recessão, afirmou ele. Spence se disse “cautelosamente otimista” em relação ao Brasil, lembrando que o país tem reservas elevadas, de US$ 200 bilhões, e uma “economia forte”.

Ele destacou também que, embora as commodities devam ficar razoavelmente abaixo dos níveis recordes atingidos neste ano, as cotações devem se acomodar em patamares ainda satisfatórios. “As pessoas não vão parar de comer por causa da desaceleração da economia”, brincou Spence, ao comentar que as perspectivas para o setor agrícola continuam boas.

McFadden também ressaltou que o Brasil será afetado pela queda dos preços das commodities. Para reagir a essa situação adversa, ele considera que o país deve promover programas de investimento em infra-estrutura. Segundo McFadden, essas são inversões com alta produtividade e para as quais deve haver recursos disponíveis. Ele avalia ainda que as perspectivas para os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) são razoáveis, e que o grupo tende a liderar a recuperação da economia global.

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