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A Copa da Leviandade

Por Janio de Freitas, na Folha de São Paulo

Prefeitos de capitais e respectivos governadores estão empenhados em uma competição nunca ocorrida por aqui. Para todos os ouvidos públicos, dizem tratar-se da disputa pela inclusão de sua capital entre as 12 que sediarão jogos da Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

A verdade é um pouco menos modesta do que os prefeitos e governadores. A conquista que eles buscam é incluir-se entre os 12 prefeitos e outros tantos governadores que vão estourar os cofres e muito futuro de suas capitais, e se necessário os dos Estados também, em benefício de sua popularidade eleitoral. A Copa do Mundo é precedida pela Copa da Leviandade, promovida pelo governo Lula.

A estimativa de custo da Copa entregue a Lula no meio da semana, por suas eminências Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, duas riquezas do peleguismo futebolístico que presidem a Fifa e a CBF, refere-se a R$ 35 bilhões calculados pela Fundação Getúlio Vargas. Se o custo fosse aquele, equivaleria a duas vezes e mais 30% de todo o Orçamento para a Educação como será apresentado, amanhã, na reunião ministerial. Ou quase nove vezes o Orçamento para Ciência e Tecnologia.


Sabe-se, porém, que estimativas de custo de obras, no Brasil, são o que há de mais consagrado na ficção brasileira. Bem, saber, não se sabe: vê-se. Uma das batalhas de Juca Kfouri, a um só tempo inglórias e gloriosas, é a cobrança do relatório do Tribunal de Contas da União sobre o custo, e as mágicas que o fizeram, do Pan no Rio em 2006. Dinheiro do Ministério do Esporte, da Prefeitura do Rio e do governo fluminense. Pois nem o TCU cumpre o mínimo dever legal e público de divulgar suas constatações, quanto mais os que torraram, entre aplicações e divisões, o dinheiro público em que estimativas de R$ 50 milhões chegaram, na realidade, a dez vezes o estimado. Sem explicação.
O que não se sabe, vê-se. O Rio, há muito maltratado, foi abandonado de todo, para a prefeitura pagar o saldo de seus gastos e remendar as contas durante dois anos e meio, como prevenção parcial do risco de inquéritos e processos na sucessão. Isso em uma capital com os recursos do Rio.
Uma cidade como Natal, cujo encanto não se traduz em dinheiro sequer em proporção aproximada, diz o noticiário que está gastando R$ 3,5 milhões só para engambelar a apresentação de sua candidatura. Propõe-se a construir um estádio, com projeto encomendado na Inglaterra, de custo estimado em R$ 300 milhões. Digamos, contra tudo, que a estimativa seja exata. A cidade e a população de Natal não têm carências inatendidas até hoje por falta de R$ 300 milhões? Na concepção eleitoreira e rentável, a continuidade, pelo tempo afora, das carências de Natal e das outras capitais de menor riqueza é compensada por três ou quatro jogos das oitavas da Copa.
O plano da cidade de São Paulo é exuberante. São Paulo pode. Mas seria interessante saber por que os bilhões paulistas, que entusiasmam o prefeito Gilberto Kassab ao se referir às obras para a Copa, não lhe dão o mesmo entusiasmo para usá-los, por exemplo, em obras corajosas que humanizem o neurotizante trânsito paulistano.
Das pequenas capitais à potência de São Paulo, só as quantias variam. O desprezo pelas cidades e suas populações, presentes e futuras, é o mesmo. Expresso na Copa das Leviandades.

7 Comentários

  1. Cap. Nascimento Reply

    É a estratégia do pão (bolsa família) e do circo (copa do mundo). Aqui em Curitiba, os urubus deste banquete orçamentário, que é para poucos, são os de sempre – metrália e sua turma, empreiteiras dona de times de futebol e amigas do poder (seja qual for), rede para bobo ver de comunicação e políticos oportunistas e eleitoreiros.
    Educação, segurança, saneamento, transporte público, saúde e habitação não são tratados como prioridades. O papo da moda é o circo. Ou melhor a copa de 2014. E os palhaços somos nós que pagamos os impostos.
    Ei reiquejão, pede prá sair. Leva junto o beto batata, o mula (com a dilminha que é boazinha), o metrália e o chico beleza.

  2. Daniel Fernandes Reply

    Acertou na mosca…
    Espero que sirva como um cala-boca nos que estão defendendo este gasto absurdo com mais esta total inutilidade…

  3. O que tem que ser feito é o povo se mobilizar e começar através de sindicatos e outras entidades organizadas uma campanha com o seguinte grito de guerra FORA COPA DO MUNDO. Que esses Europeus que façam circo em seus paises onde eles tem bastante dinheiro para gastar com essa palhaçada carissima. O mundo inteiro falando em recessão e eles querendo empurar esse pepino para o terceiro mundo.

  4. Concordo plenamente com o comentário do Rock. O mundo pegando fogo e os europeus querendo empurrar este pepino ao Brasil. O dinheiro que vai ser gasto ajudaria – e muito –
    a vergonha dos hospitais públicos vistos todo dia por nós. Governantes, tenham juizo e não entrem nesta fria. Pouquissimos irão se locupletar.

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