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A ilusão monetária

delfim-netto

Artigo do ex-ministro Antonio Delfim Netto, no Valor Econômico:

Nos últimos 50 anos, o conhecimento de como funciona o sistema econômico melhorou dramaticamente: sofisticou-se, enfatizou a necessidade de construir modelos mais rigorosos em linguagem matemática e exigiu a construção de uma metodologia estatística especial para verificar se eles resistem à comparação com a realidade. Esperava-se um bônus adicional: a eventual possibilidade de que tais modelos permitissem algum tipo de “previsão” utilizável fora do período da amostra, o que, infelizmente, até agora não se verificou.

As razões do fracasso dessa ardente aspiração científica são várias. Muito provavelmente estão ligadas ao próprio objeto de estudo: um universo, que ao contrário do físico, está sempre em rápida mutação, onde o átomo (o homem) aprende, antecipa, escolhe e as “leis naturais” (as instituições) são produto de sua própria ação. De qualquer forma, é impossível negar que foi apreciável o resultado final desse esforço. Ele ajudou a formular políticas econômico-sociais mais adequadas para atingir objetivos definidos pelo poder político incumbente.

Suspeito que, em nenhum dos campos do conhecimento e do ensino da economia, a diferença entre o que se fazia há 50 anos e o que se faz hoje seja maior do que a que se refere à moeda e ao crédito. Por um lado houve um enorme avanço na teoria monetária, com a construção de sofisticadíssimos modelos (que resistem duvidosamente aos ataques empíricos) e, por outro, um enorme empobrecimento do conhecimento do papel da moeda e do crédito no processo de desenvolvimento da sociedade humana.

Na velha FEA/USP dos anos 50 do século passado, um competente e exigente autodidata em economia, mas com sólida formação humanística, o professor Dorival Teixeira Vieira, investia na disciplina Moeda e Crédito meia dúzia de horas para explorar a fundamental história da origem da moeda e do crédito e o seu sentido mais profundo como “relação social”, isto é, instituição construída sobre a confiança dos indivíduos uns nos outros, o cimento que precede e torna possível a existência da própria sociedade.

Tratava-se de um rápido sobrevoo pela psicologia, pela antropologia e pela sociologia da moeda e do crédito para insistir que a confiança que cada pessoa deposita na outra – uma relação social institucional – é a condição básica para o funcionamento do “circuito” econômico, onde o dispêndio de um é a renda do outro. No curso, o tratamento da taxa de juros (mais de cunho histórico) deixava muito a desejar. Sua principal influência era uma tênue ligação empírica entre ela e a velocidade de circulação da moeda na teoria quantitativa.

Na disciplina Moeda e Crédito, em 1951, o Keynes do Tratado da Moeda (1930) era restrito ao início da incorporação das finanças na teoria monetária e às suas identidades (“equações fundamentais”). Não se entendia o papel da variação dos preços na distribuição da renda para acomodar o equilíbrio entre poupança e investimento, nem o novo protagonismo da taxa de juros. E não se falava de sua dúvida devastadora sobre a estabilidade da economia de mercado.

Para entender a diferença do ensino e do conhecimento entre 1950/1955 e 2003/08 nessa matéria, basta dizer que os livros mais sofisticados e na “moda” da “teoria monetária” de hoje, que pretendem ensinar aos bancos centrais do mundo como controlar suas taxas de inflação, ignoram diretamente a moeda e não veem necessidade da palavra “crédito”. Basta-lhes a manipulação da taxa de juros. Foi por isso que eles demoraram tanto para entender a crise de confiança que se instalou no sistema financeiro mundial, confundindo-a com uma crise de liquidez.

No Brasil, pelo mesmo motivo, importamos a crise em grau maior do que o necessário, porque nossa política monetária esteve sempre na direção certa, mas sempre, também, atrasada e homeopática. Faltou-lhe (mesmo com o swap do FED) o conhecimento, a coragem e a convicção para dar decisivo conforto ao sistema bancário nacional. Pior, promoveu uma miótica seleção “huxleyana”: banco privado grande come banco privado pequeno e os dois serão comidos pelos bancos oficiais, o que terá terríveis consequências para a competição futura…

É preciso insistir na irrelevância da afirmação que, no longo prazo, a moeda é “neutra”, ou que ela é apenas um “véu” que esconde, mas não modifica, os fatos reais da economia, que no fundo informa a “moderna” teoria. No curto prazo (que é onde temos que viver), há uma insuperável ligação entre os fenômenos monetários e creditícios e os fenômenos da economia real. A ideia que os fenômenos reais da economia são produzidos apenas pela variação dos recursos, das preferências e das tecnologias à disposição dos agentes (a teoria dos ciclos reais apreciada por alguns dos nossos economistas) é tão insatisfatória quanto a ideia (defendida por outros não menos ilustres) que eles são produzidos apenas pelos fenômenos monetários.

Por mais poderosos que sejam os argumentos da moderna teoria monetária sobre a possibilidade e a conveniência de ignorar a moeda e o crédito e substituí-los pela manipulação da taxa de juros na execução da política monetária, eles não resistem nem a pequenas modificações nos modelos (por exemplo a simples introdução do crédito bancário e de títulos do governo no modelo neowickselliano ou neokeynesiano), nem melhoram sua aderência à realidade. É hora de reconhecer que a “grande moderação” que parecia ter sido conseguida pela política monetária que ignorava a confiança, a moeda e o crédito era, apenas, uma “ilusão”… monetária.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento.

3 Comentários

  1. fabio.

    O Delfin neto, DE NOVO?

    Depois desta catástrofe na economia mundial, os economistas deveriam se proibidos de falar, POR UM LONGO TEMPO, curtindo um bom e merecido catigo.

    LINEU TOMASS.

  2. No milagre econômico brasileiro ninguém ganhou mais dinheiro do que o nobre economista, que investiu milhões de dólares em máquinas para suas fazendas. Será que foi milagre?

  3. José Russomanno Responder

    Conceitos são conceitos, principalmente em economia, e ainda mais do meu antigo professor de economia!
    Bom …tenho que discordar na implementação de duas amostras reguladoras..ou uma amostra e outra dando previsão fora da amostra. Isso traria confusão na análise total , e não traria beneficio global á todos os meios economicos envolvidos!
    Conceitos são conceitos …e eu tenho o meu …! As coisas simples é que funcionam!

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