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Crise global se aprofunda e arrasta Bovespa e dólar

De Antônio Machado no Correio Braziliense

O novo refluxo das bolsas internacionais, com danos também sobre o desempenho da Bovespa, outra vez flertando com os 35 mil pontos, menos da metade de seu pico no ano passado, e a cotação do dólar, de volta ao patamar de R$ 2,40, sinalizam movimentos da economia de longo curso, mas não necessariamente ameaçadores para o país.

O primeiro é que a gravidade da deterioração da economia no mundo industrializado é muito maior, mas muito mesmo, que as avaliações mais pessimistas. Não há fatores isolados, embora, para a queda de segunda-feira das bolsas globais, o empurrão tenha resultado de um anúncio impressionante: o prejuízo da seguradora americana AIG no último trimestre de 2008, de US$ 61,7 bilhões — recorde histórico entre as empresas dos EUA. A AIG é um morto-vivo que só assombra.

Não fosse a maior seguradora do mundo e não estivesse a economia dos EUA no epicentro de uma crise sistêmica, com o resto do mundo agarrado a ela e afundando em conjunto, a AIG já teria ido para o espaço há muito tempo. O Tesouro americano injetou US$ 150 bilhões em troca de 80% de seu capital e se prepara para enfurnar mais US$ 30 bilhões, sabendo que não vai bastar. Fazer o quê?

Além de segurar coisas triviais, como vida, imóveis, veículos, a AIG se metera também a garantir fluxos de recebíveis securitizados e derivados em vários andares de ativos financeiros, estando neste tipo de operações — não no subprime de hipotecas —, o vírus que se instalou no sistema financeiro dos EUA, propagando-se ao resto do mundo pela globalização das finanças. A AIG, como grandes bancos que se prestaram a tal serviço, tipo Citi e Bank of America, nos EUA, Deutsche, na Alemanha, Royal Bank of Scotland e Lloyds, na Inglaterra, UBS, na Suíça, afundaram pelo colapso da securitização de fluxos de caixa, sendo a de hipotecas o detonador do processo.

Créditos de bancos europeus a setores, empresas e países, como os da ex-União Soviética, todos a caminho da insolvência, e derivados em ativos financeiros, estão na contabilidade da AIG. Se não forem rolados, transformarão em realidade um risco ainda só contábil: as perdas bilionárias do sistema financeiro da Europa, provisionadas pelos pacotes de resgate dos governos, mas ainda não realizadas.

É coisa da ordem de US$ 1,5 trilhão — um dinheiro que se sobrepõe a outro tanto já gasto pelos governantes para tentar, sem sucesso, reverter o aprofundamento da recessão na Europa. Tal garantia para a solvência bancária, a rigor, país algum dispõe em caixa nem tem como acessar a não ser amplificando a dívida pública e os déficits fiscais a níveis capazes de ameaçar a estabilidade do euro.

Depressão é o risco
Esta é uma crise incomum. Não é uma simples recessão, já que não nasceu induzida pelos bancos centrais como subproduto de políticas antiinflacionárias e de equilíbrio cambial. Ao contrário, surgiu à revelia dos bancos centrais, apesar da cumplicidade pela leniência com que trataram a supervisão bancária, e agora fazem de tudo para contê-la e evitar o estágio seguinte: a depressão, acompanhada de deflação dos bens reais, pois dos ativos financeiros está em pleno curso, o que significaria o colapso total da economia mundial.

Europa em parafuso
A própria integração econômica europeia está em causa, sobretudo depois que os chefes de governo se reuniram em Bruxelas, no fim de semana, para analisar a crise e não concluíram coisa alguma, afora recusar a ajuda em bloco aos novos membros do Leste Europeu. Eles pediram um fundo de US$ 241 bilhões adicionais ao pacote de US$ 30 bilhões oferecido por organismos multilaterais europeus. Ouviram da primeira-ministra da Alemanha, Ângela Merkel, que a ajuda, se sair, será caso a caso. Compreensível: a Alemanha é o trem-pagador dos gastos da União Europeia, à qual aderiu sem um referendo e a contragosto dos alemães. Segundo maior exportador e terceira maior economia do mundo, o país capotou. O Deutsche prevê queda de 5% da economia este ano. O desemprego tende a ser o maior do Pós-Guerra.

País continua firme
A estes desastres épicos reage a economia brasileira com valentia até, como mostra a recuperação do superávit comercial no bimestre, embora quase 30% menor que em 2008. E a queda da Bovespa? Reflexo de sua dependência da similar de Nova York. E a alta do dólar? Não resulta de crise cambial, mas de especulação no mercado futuro da BM&F. Não faltam dólares ao país. Pessimismo é nossa maior ameaça.

Síndrome dos outros
A análise relevante sobre o Brasil não é a que expõe as perdas da economia à crise, mas a que destaca a sua força relativa diante da débâcle global. Os EUA se ataram à síndrome do Lehman Brothers. Já gastaram o que não têm — e mais vão torrar para evitar outra ruína terminal, como a quebra do Citibank ou da AIG. Tal receio antecede e condiciona os planos do governo de Barack Obama para ressuscitar a economia americana. Ainda assim ela está melhor que a Europa, já que não tem as amarras do euro para emitir, além de o dólar seguir demandado no mundo, nem rigidez social para se ajustar. A pujança da Ásia depende de ambos, e da ativação do consumo chinês, que não virá tão cedo. Tais problemas não nos afligem. Essa é a diferença.

3 Comentários

  1. A melhor analogia para esta nova etapa da crise financeira é uma casa de swing:

    Em uma casa de swing lotada, todo mundo está comendo e/ou dando para todo mundo. A música tá rolando alto, whisky, cervejas, vodkas e viagras a vontade.. Até que determinada pessoa no meio da sacanagem grita bem alto: “EU TENHO AIDS!!!”.
    Pronto: ninguém sabe se comeu e/ou deu para esta pessoa (e pior… se comeu e/ou deu foi com ou sem camisinha). Quem estava comendo e/ou dando irá parar de comer e/ou dar porque não sabe se a pessoa que está comendo e/ou dando naquele exato momento comeu e/ou deu para a pessoa que gritou que tem AIDS. Todos avaliam o risco de sua situação e, é certo, não vão mais comer e/ou dar para ninguém mais por um bom tempo (ao menos até saberem se têm ou não AIDS). E quem tinha acabado de chegar na casa de swing e ia começar a comer e/ou dar feito coelho não vai mais comer e/ou dar.
    É esta crise de confiança que abalou a casa de swing que atualmente abala o mercado financeiro: quem estava investindo não investe mais; e quem pensava em começar a investir não investirá mais. A analogia entre a casa de swing e o mercado financeiro é mesmo a mais adequada, afinal, no frigir dos ovos, é tudo a mesma coisa: uma grande sacanagem!

  2. É interessante a matéria da revista veja da semana.

    10 razões para acreditar que o Brasil saia primeiro da crise 1 uma para não acreditar.

    É uma boa leitura, não ótima, mas vale apena.

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