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O Brasil é uma economia mais fechada do que a chinesa, diz Delfim Netto

delfim-netoDelfim Netto na Carta Capital

À medida que o ano avança, aumenta a admiração mundial pela resposta rápida e certeira da política econômica chinesa aos problemas criados pela desintegração do sistema financeiro mundial. A quebra de confiança ocorrida depois da liquidação do banco Lehman Brothers atingiu como um raio a China e o Brasil.
Houve uma interrupção instantânea do crédito interbancário e a simultânea busca de liquidez por todos os agentes econômicos, o que levou à paralisia e à perplexidade o setor real das duas economias.

Semelhança importante entre elas é que ambas já haviam resolvido seus problemas bancários. O Brasil com o Proer em 1997. E a China com uma profunda e radical mudança de governança corporativa que em poucos anos capitalizou os bancos (estatais) e absorveu os créditos insolvíveis. Graças a isso, a crise financeira externa não se manifestou como interna. O Brasil tem ainda um diferencial favorável: é uma economia mais fechada do que a chinesa, o que deve reduzir o impacto da queda das exportações

.

Às vésperas do segundo semestre, é constrangedor reconhecer que os resultados das respostas dos dois países à crise importada serão muito diferentes (o crescimento da China deve recuar de 9% para 7% ao ano. O do Brasil, de 5,1% para retração de 1,4%), o que talvez valha uma reflexão.

O que explica essa trágica diferença quando consideramos que, “vistas de longe”, as respostas dos dois países foram na mesma e correta direção: mobilização da política monetária, da política fiscal e ampliação dos investimentos públicos? Talvez três fatos: 1. A falta do sentido de urgência da nossa política monetária, sempre atrasada, sempre sem convicção e sempre diversionista. 2. O pequeno espaço e a pequena alavancagem dos investimentos públicos vitimados não apenas pelos parcos recursos, mas pelas ineficiências administrativas e regulação exagerada. 3. As diferenças institucionais.

Quanto ao esforço monetário, a situação é ainda ruim. Oito meses depois da crise, continuamos a fingir que o crédito interbancário está regularizado. As pequenas e médias empresas continuam desassistidas. O Banco Central segue inibido no uso de sua musculatura, talvez porque seus agentes públicos não têm o conforto jurisdicional necessário.

Quanto ao esforço fiscal, a diferença é enorme. O PAC foi criado em 2006 e a crise apenas o mobilizou. Ele enfrenta, entretanto, dificuldades de toda ordem. Na China, em novembro de 2008 (menos de dois meses depois da tragédia), aprovou-se um plano de investimento da ordem de 600 bilhões de dólares, para ser executado em dois anos (um pouco mais do que 5% da soma dos PIBs de 2009 e 2010). Ele inclui obras de infraestrutura que devem utilizar mão de obra local para distribuir renda no interior e estimular a compra dos bens de consumo que eram exportados.

Apenas para dar um exemplo: enquanto o Executivo, no Brasil, continua a lutar com a regulação ambiental, com o exibicionismo do Ministério Público e os exageros do Tribunal de Contas para construir uma pequena estrada ou uma hidrelétrica incluídas no PAC, a China, em 30 dias, aprovou licença ambiental e pôs em marcha quase cem projetos de obras públicas que estavam parados no Ministério do Meio Ambiente. Não se propõe que a fiscalização e a vigilância sejam diminuídas. Apenas era legítimo esperar que houvesse o mesmo senso de urgência.

Com relação à política cambial, é visível que estamos repetindo os erros anteriores. É claro que o “dólar está se desvalorizando”, mas é ainda mais claro que a “super” valorização do real não é apenas a imagem daquela desvalorização, como se tenta provar. Ela é extremamente prejudicial às exportações industriais criadoras de emprego. A China, ao contrário, não permitiu qualquer volatilidade na sua moeda “super” desvalorizada e, na confusão, aumentou os subsídios à exportação de manufaturados sem considerar as regras da OMC. Quando
vamos aprender?

4 Comentários

  1. Me engana que eu gosto!
    O PT quer se tornar o novo PRI, que com o tempo de progressista se tornou reacionário ao virar o porta voz dos interesses do capital internacional assim mantendo a submissão e a dependência política e econômica do México.

    Hoje enquanto todos os países do primeiro mundo e até a China tomam medidas de salvaguardas econômicas visando a proteger os interesses nacionais nós continuamos sem tomar atitudes mais sérias que venham a proteger o nosso mercado interno., os nossos interesses soberanos do ponto de vista da economia.

    No “primeiro mundo” os juros foram reduzidos a praticamente zero e está havendo intervenção estatal em todos os bancos e demais grandes empresas via medidas keynesianas, mas aqui para a alegria dos banqueiros e demais crápulas que atuam e lucram com a especulação no mercado no Brasil a festa continua.

    Não podemos comparar o que aqui é feito com o que acontece na China, que é nacionalista e prioriza o seu mercado interno e as exportações de produtos industrializados, pois assim ela apesar da crise continua crscendo e as reservas de divisas aumentaram 16% no final de março em relação ao mesmo período do ano passado, assim alcançando a cifra de US$ 1,9537 trilhão, segundo informou o Banco Popular da China, que é o Banco Central daquele país.

    Hoje o PIB chinês é de US$ 3 trilhões de dólares, mas segundo Keidel, que foi economista do Banco Mundial e do Tesouro americano, em 2050, o PIB chinês deve alcançar US$ 82 trilhões, contra US$ 44 trilhões dos Estados Unidos.

    E nós se depender das políticas do Lula (Consenso de Washington) continuaremos a ser os mesmos meros exportadores de matérias primas e produtos manufaturados.

    Mas aqui como tudo que este governo faz a crise é uma marolinha …………..

  2. Tarso de Castro Responder

    Ué, Jurandir, na frase de cima você elogia a pujança chinesa e na seguinte acusa o Brasil de estar virando um país igual… à China. Concordo com o Gilson: o Neto já deu fim no que tinha que dar.

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