Uncategorized

Um grita, o outro
não escuta

foto_mat_23912

Sérgio Augusto no o Estado de S. Paulo

Zelaya e Micheletti travam seu diálogo de surdos

– Bigodão latino, botas de caubói, sombrero Stetson, Manuel Zelaya mais parece um vaqueiro daquelas antigas películas rancheras do cinema mexicano do que um presidente deposto. Não irradia simpatia, parece muito vaidoso, soberbo e gabola, mas nada disso importa diante do fato irretorquível de que ele foi deposto por um golpe militar, condenado no mundo inteiro.

Golpe sem futuro. Zelaya e seu “sucessor”, Roberto Micheletti, já atravessaram o Rubicão, para um diálogo de surdos à beira do abismo. Ilhada, pressionada e boicotada pela comunidade internacional, entregue aos caos e à violência, corroída por um prejuízo diário de R$ 38 milhões, Honduras não tem outra saída senão retornar ao que era antes do último domingo de junho, com Zelaya de volta ao palácio presidencial, Micheletti ao Congresso e os militares golpistas aos quartéis. As eleições presidenciais de 29 de novembro seriam mantidas, Zelaya concluiria seu mandato em dezembro e passaria a faixa ao sucessor em janeiro; tudo voltaria ao status quo ante, com a direita insistindo em conspirar, caso não conseguisse eleger um candidato de sua confiança, ou nas encolhas, caso houvesse alguma chance de os golpistas serem exemplarmente punidos por desrespeitarem a Constituição.

Os conservadores tinham Zelaya como um dos seus. Estrela da elite agrária, o vaqueiro de Catacamas concorreu à presidência pelo Partido Liberal, de centro-direita, com uma plataforma neoliberal: lei & ordem, redução dos gastos públicos, apoio à Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Empossado em janeiro de 2006, revelou-se um reformista enrustido: deu força aos sindicatos e outras organizações sociais, aumentou o salário mínimo em 60% (“para obrigar a oligarquia empresarial a pagar o que é justo aos seus empregados”), deu leite e lanche grátis às crianças e pensão aos velhinhos, peitou os mandachuvas acostumados a controlar a mídia, a Justiça, o Congresso e até a pauta presidencial. Já o acusavam de populista e demagogo quando, seduzido pelo petróleo subsidiado da Venezuela, trocou a Alca pela Alba bolivariana liderada por Hugo Chávez. Aí virou “traidor da pátria”, “corrupto”, “lacaio do socialismo e do narcotráfico”.

Santo ele nunca foi. Fez algumas bobagens na presidência; combateu o oligopólio midiático hondurenho com o veneno errado (obrigando as emissoras de rádio e TV a transmitirem duas horas diárias de propaganda oficial), pressionou radialistas que se opunham sistematicamente ao governo, dizem até que tentou subornar um repórter do jornal El Heraldo. Tudo isso é café pequeno perto do que fizeram outros governantes hondurenhos, muitos dos quais alçados ao poder por uma quartelada, invariavelmente apadrinhada pelo governo americano e a United Fruits (atual Chiquita, ex-United Brands), a multinacional da banana. Como de hábito, a solução agora está nas mãos do Exército, a esta altura bem menos coesamente unido em torno dos golpistas.

A desculpa de “golpe preventivo” é furada porque baseada numa hipótese, em mera especulação, segundo a qual Zelaya usaria o plebiscito agendado para o dia 28 de junho para mudar a Constituição e reeleger-se presidente. Zelaya precisaria, primeiro, convencer o eleitorado da necessidade de uma nova Constituição, que só poderia ser redigida por uma assembleia constituinte, cujos trabalhos seriam inevitavelmente concluídos muito depois da posse do novo presidente. Ou seja, Zelaya não tinha como se beneficiar do “crime” que os golpistas, matreiramente, lhe imputaram. Eles, na verdade, não se preocupavam com a “perpetuação” de Zelaya na presidência, mas com outras mudanças, sobretudo socioeconômicas, eventualmente embutidas na nova Constituição.

Mesmo que Zelaya de fato tencionasse dar um golpe, “rasgar” a Constituição, e coroar-se rei do bananal, o general Romeo Vásquez não tinha o direito de sequestrá-lo e despachá-lo, de pijama, para a Costa Rica. Não que a Constituição de Honduras chegue ao requinte de proibir o embarque, em aeronaves, de presidentes depostos com roupa de dormir. Ela apenas proíbe que qualquer cidadão hondurenho seja entregue a autoridades estrangeiras. O general Vásquez e seus prepostos é que, concretamente, desrespeitaram as leis do país.

O governo americano, com razão sempre visto por trás de todos os golpes na América Latina, vacilou feio, deixando espaço livre para as fanfarronices de Hugo Chávez. É compreensível o pisar em ovos de Obama, avesso à diplomacia unilateral e de confronto, mas seu excesso de cautela e o chove não molha de Hillary Clinton só beneficiaram os golpistas.

O New York Times revelou que a Casa Branca fora informada do golpe com alguma antecedência e tentara em vão dissuadir os militares hondurenhos. Conforta saber que Obama não age como Bush, mas por que não foi mais rigoroso e vigoroso com a derrubada de Zelaya, se desde dezembro sabia das intromissões do embaixador americano em Honduras, Hugo Llorens, nos assuntos internos do país? Zelaya contou-lhe tudo numa carta. O mínimo que Obama poderia ter feito era afastar Llorens e outros diplomatas da era Bush da política externa americana.

Zelaya já esteve seis vezes em Washington depois do golpe. Nunca conseguiu encontrar-se com o presidente americano. Em 11 de agosto, 16 congressistas americanos enviaram carta a Obama, pedindo-lhe que “condenasse publicamente o uso de violência e repressão contra manifestantes pacíficos, a morte de militantes políticos e todas as formas de censura e intimidação dirigidas contra os meios de informação pelo governo hondurenho”. Obama não se mexeu. Seria isso um sinal de que a Casa Branca não estava disposta a atritar-se com o governo Micheletti e, no fundo, achava conveniente que o impasse em Honduras perdurasse até o fim do mandato de Zelaya?

Especulações desse teor circulam freneticamente pela internet. Em seu visitadíssimo blog, a advogada Eva Golinger revelou ter ouvido do porta-voz do Departamento de Estado americano, Phillip Crowley, que seu governo “não considerava o que aconteceu em Honduras um golpe de Estado”. E o que foi então? E o que devemos concluir dessa interpretação?

Golinger, e também Bill Weinberg (World War 4 Report) e Nikolas Kozloff (Counterpunch), inocentam o atual governo americano mas não os “agitadores” (como Otto Reich) e think tanks sediados nos Estados Unidos (International Republican Institute, Arcadian Foundation), que antes serviram aos interesses diplomáticos e corporativistas dos republicanos. É uma praga continental, que só as democracias plenas conseguem combater eficazmente.

13 Comentários

  1. Vigilante do Portão Responder

    A diplomacia do governo do PT, sob a batuta do Hugo Chaves, patrocinou essa idiotice.
    É umproblema interno de Honduras, caso o Zelaya tivesse razão, os organismos internacionais dariam respaldo para suas pretensões. Não cabia ao Brasil ser patrono do presidente deposto.
    Estranha foi a manifestação do Lula sobre o motivo pelo qual o Zelaya foi apeado do poder – no caso, ele tentou alterar a constituição para ter mais um mandato -, nosso lider falou: “não vejo nada de anormal, a mudança seria precedida de um plebiscito”.
    Será que a mesma receita vale também para o Brasil?

  2. O Presidente deposto de Honduras parece querer trilhar pelo mesmo caminho da Venezuela que é a ditadura e a consequente perpetuação no Poder. Hugo Chavéz é um triste exemplo disso. Também foi deposto e conseguiu voltar ao Poder para nunca mais deixá-lo, enquanto estiver vivo.
    É muito fácil ao governante que estiver no Poder reeleger-se sucessivamente pois a força da máquina estatal na mão tem um efeito positivo fulminante na propaganda eleitoral. Isso cria enorme desvantagem para qualquer candidato de oposição que se disponha a concorrer, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Tanto Zelaya como Chavéz sabem muito bem disso.

  3. Esse Lula, embalado pelo Chavez arrumou sarna para se coçar, o pior – contrário da tradição brasileira, sem consultar ninguém só pra agradar o ditador da Venezuela.. O nosso presidente tá se achando – o estadista. Ridículo.

  4. Cap. Nascimento Responder

    O lula viajando da silva e o seu Itamaraty irão condenar também as ditaduras de esquerda e outros golpistas mundo afora com a mesma “firmeza” como estão procedendo agora em Honduras? O que vale para Honduras não vale para Cuba, Irã, Venezuela, Líbia, Farc e etc? Na aritmética diplomática da ptzada são dois pesos e duas medidas?
    Sai fora lula-sarney. Xô reiquejão.

  5. EU PARTICULARMENTE SOU Á FAVOR DE UMA NEGOCAÇÃO DE PAZ,NA CRISE DE HONDURAS,..CONVERSEM OS DOIS ENVOLVIDOS, SE ACERTEM PIOR DAS IPÓTESES QUE O QUE ESTA NO PODER PERMITA QUE O DEPOSTO DEIXE O PAIS COM GARANTIAS DE QUE NÃO HAVERÁ RETALIAÇÕES,,ATÉ O BRASIL QUE É UM PAIS DE TODOS OS POVOS SEM DISTINÇÕES DE COR E CREDOS,..PODE ASILAR O DEPOSTO….E FECHA-SE Á EMBAIXADA E PONTO FINAL, NÓS NÃO TEMOS NADA Á PEDER,,,AGOR EU PERGUNTO?? ESTÁ NOS NOTICIÁRIOS QUE O GOLPISTA DEU UM PRAZO PARA QUE O BRASIL ENTREGUE O EXILADO,,,E SE NÃO ENTREGAR??? É DE PREOCUPAR,,,,O QUE NÃO DEVEMOS É ASSUMIR MILITARMENTE ESSE ASSUNTO,,,DEIXEM PARA OS DA AMÉRICA CENTRAL QUE NÃO SE ENTENDEM Á MAIS DE CEM ANOS…E DEIXE RESOLVERMOS OS NOSSOS PROBLEMAS,,,,QUE NÃO SÃO POUCOS.

  6. O Pato Curitibano Responder

    Zé Laya e sua trupe de golpistas da America do Sul (Chavez, Correa, etc…) que fazem parte dos B.O.S.T.A.S (Bolivarianos Organizados Semeando Terror na America do Sul) queria mudar a constituição a força (Constituição = aquele livro que deveria ser lido pelos mandatários. E principalmente pelo povo. É o Pequeno Príncipe das misses). Só que esbarrou no judiciário (pelo menos decorou as cláusulas) e simplesmente foi deposto. Era cláusula da constituição, e ele influenciado pelo Chavez (aquele sócio da mãe Lula, aquele que só fala e aparece e o Lula executa e se ferra) passou por cima, e ainda insiste dizer que só serve para funcionários públicos). Errado foi o fato de ser levado pelos militares para fora do país. Mas alguém tinha que fazer este serviço e trazer ar respirável para Honduras. Só que agora, nosso pequeno Bush barbudo, se meteu num problema interno de um país, coisa que sempre condenava. E a coisa toda fedeu. Que fizeram de ti, Itamaraty. A que ponto chegamos. E isto em apenas 7 anos. Isto é produtividade. Talvez seja este o motivo para mudar os índices agrícolas. Lula disse que não soube e Dilma que não houve. Em quem você acredita?

  7. Perai, defender os golpistas já é demais. Num breve retrospecto da nossa historia veremos que varios pensadores e politicos que hj estao no cenário nacional, ja tiveram q usar do apelo as embaixadas na epoca da ditadura militar que atrasou o país. Então, nesse caso não há o que criticar nem a política internacional do Brasil, que aliás, é apoiada por todas as nações soberanas e democratica. Deve, sim, indignar com que vem tentando denegrir a postura do Brasil, associar-se e ou calar-se diante a fatos como esses é quase que o mesmo.

  8. Nao foi golpe Militar. O judiciario julgou, a camara votou e o exercito cumpriu a ordem.
    Se isto e justificavel, entao se o Collor nao tivesse RENUNCIADO, ele poderia FICAR Presidente mesmo sendo cassado pelo SENADO BRASILEIRO?
    Estou com o Pato Curitibano

  9. A lógica do artigo acima é a mesma do “rouba mas faz”, se ele aumento salários, deu “leite pras crianças”, “pensão pors velhinhos”, etc e tal, não configura salvoconduto pra cometer crimes a afrontar os demais poderes constitucionais de seu País.

    Foi o que ele fez, o artigo acima não diz, mas ele queria um plebisicito incostitucional (fora do prazo), exigia que o exército cumprisse sua ordem à revelia da Suprema Corte de seu País e destitiui o comandante do Exército porque este se recusou a cumprir uma ordem ilegal e inconstitucional.

    Foi deposto pela Suprema Corte, não sem antes recorrer e ser julgado; o erro foi deportá-lo, tinham apenas e tão somente que prendê-lo, como determina a Constituição de Honduras.

    Detalhe importante: as eleições já estavam marcadas antes desta confusão e foram mantidas, com os mesmos candidatos de então, sendo que o candidato dele estava muito mal nas pesquisas.

    Além disso, o atual Presidente era o Presidente do Congresso e ficará somente até dezembro deste ano, quando entrega o poder ao próximo eleito. O exército não tomou nenhuma ação diferente daquelas estabelecidas na Constituição de Hoduras e não faz parte do Governo de fato, a não ser no cumprimento das suas obrigações como poder militar de seu País.

    Quem deu o “golpe”? Zelaya, Chavez e claro, o nosso presidente…

  10. Zelaya tentou usar táticas chavistas para se perpetuar no poder. Teve suas pretensões rechaçadas pelo Judiciário e então tentou usar da demagogia para conseguir, mediante consulta popular, alteração constitucional que o favorecesse. É um populista a menos e Lula deve exigir a devolução da embaixada já.

    [ ]’s

  11. Quanta bobagem!!! Zelaya foi deposto por um golpe! GOLPE!! G-O-L-P-E!!!!!
    A tal mudança na Constituição não lhe permitiria a reeleição pois somente após o processo eleitoral é que a tal reforma estaria concluída!!! O Judiciário Hondurenho em conluio com militares golpistas, congressistas malandros e o apoio da mídia local venderam a absurda hipótese de golpe preventivo pois o presidente queria consultar o povo sobre assunto que diz respeito ao povo!
    Ainda tem otários que defendem esses golpes orquestrados pela mídia mandante e pela turma que não quer perder as tetas. Pergunto aí aos defensores do golpe: alguém aí gostaria de ser hondurenho numa hora dessas, sendo “defendido” por golpistas???

  12. vamos imaginar que o Serra se eleja presidente em 2010. Vamos combinar que ele implante no país a política tucana neoliberal. Aí em 2014 o Serra se reelege, e para avançar na política neoliberal tucana ele resolva convocar um plebiscito para que o povo decida se a União privatiza tudo, aumenta impostos e permite a reeleição sem limites. Aí vem o pessoal das Forças Armadas, mais uma galera da oposição no Congresso e dá um golpe e depõe o Serra. Quem apoiaria os golpistas?

Comente