Uncategorized

Pequeno canalha



Ilustração: Katiane Cabral

Crônica de Fábio Campana para a Revista Ideias de julho.

O pior canalha é o pequeno canalha. O anão moral. Medíocre, dissimulado, frustrado, morre de inveja dos que têm atributos que lhe faltam, o que é muito comum.

Perdedor em tudo e inconformado com a sua sina de perdedor faz-se canalha para purgar os pequenos demônios da inveja que corroem suas entranhas.

É capaz de cometer todas as pequenas perversidades que conhece para sublimar o sofrimento que o destino biológico lhe impõe. A falta de neurônios acompanhada da indigência cultural do meio são condições ideais para o surgimento do pequeno canalha.

Um homem sem atributos, fisicamente mal dotado, de inteligência mediana, desagradável no aspecto e na voz metálica, compreende a sua limitação e se rebela contra todos que lhe pareçam mais aquinhoados pela sorte.


Imaginem um professor de literatura que almeja a glória do grande escritor. Ele tenta realizar seu sonho, escreve contos e os transforma em livro. Espera aplausos e o máximo que colhe é a indiferença. Agastado com as críticas que lhe revelam a absoluta falta de talento, devolve na mesma moeda. Transforma-se em crítico e produz laxativas apreciações sobre a literatura alheia.

Tenta mais uma vez. Produz um romance. Vira motivo de chacota. Seus personagens são pífios, tão vazios e desinteressantes quanto ele. Vai à loucura e chega a pensar no suicídio. Mas o pequeno canalha não tem coragem nem dignidade para tanto. Logo atribui ao mundo as suas mazelas. Ou seria a síndrome de Adison a responsável pela sua falta de inspiração? Não. A síndrome de Adison só explica a impotência sexual e manchas na pele que parecem vitiligo.

Fracassado, aposta tudo em relatos sobre a vida doméstica e as agruras de sua mãe no segundo casamento. Quer provocar lágrimas, só consegue o riso dos poucos leitores que imaginam a pobre senhora em esforços para cumprir os deveres sexuais exigidos por um marido de hábitos toscos da vida rural. Há nobreza no sofrimento dessa mulher que se submete de todas as formas para garantir proteção ao filho.

À noite, insone, atormentado, pergunta-se porque é assim piegas e medíocre. Põe em dúvida sua convicção religiosa. Deus não pode ter sido tão cruel ao lhe dar menos em tudo, do tamanho do pênis aos neurônios da região frontal.

O pequeno canalha sofre. Gostaria de se diferenciar na multidão. Ser reconhecido por algo que só ele tenha produzido. Nada. Aos poucos só é notado pelas pequenas canalhices que cometeu. Resta-lhe a fuga. Covarde para encerrar sua grotesca participação de forma definitiva, procura um lugar onde possa parecer mais culto para satisfazer o pequeno ego com as glórias da província. E se distrai em exercícios para conceber um epitáfio que lhe louve na morte o que gostaria de ter realizado em vida.

14 Comentários

  1. -Parábens Campana pela excelente crônica!
    -Se pararmos para pensar, algumas pessoas se enquadram perfeitamente.

  2. Fabio, você atingiu nível de Nelson Rodrigues.
    Essa crônica é uma gigantesca metáfora.
    Como existem pequenos canalhas por aí.
    Esquecemos disso.
    Obrigado por lembrar-nos de forma tão contundente.

  3. S Y N F R O N I O. Responder

    Fabio exelente, cronica, mais eu complemento, que figuras que se enguadram
    nesse perfil,Sao PISICOPATAS, Emerece tratamentto, se issso existe, e compaaixaao.

  4. Fabio, que inspiração, adorei até porque ha trinta e tantos anos convivo com pequenos e pequenas canalhas. Voce disse tudo.

  5. Alguns anões se revestem em armaduras gigantes de pedra e, infelizmente, subsistem neste governo do Beto Richa.

  6. …que o diga JOSÉ INGENIEROS….autor de o HOMEM MEDÍOCRE…….
    ….Em 1910 ,na Argentina ,em sua tese de DOUTORADO………………….
    existem paranenses que deveriam adotar este livro como rito de vida…….
    ao invés da CARTA DE PUEBLA…….

    PARANA NETO.

  7. Para quem é que foi dirigido, para o maria louca ou para seu preboste roberto carlos, ou para ambos? Se bem lido facilmente se constata que serve para os dois. Parabéns pelo excelente texto!

  8. Requião não se assemelha a um pequeno canalha. Nem de longe… Não tem nada de pequeno.

  9. Parabens Fabio, infelizmente existe uma epidemia de pequenos canalhas, o que nos obriga a tomar muito cuidado, pois esse tipo de verme é nocivo a saude, e todos os dias vemos muitas manifestações deste tipo de individuos.

  10. Interessante o texto me faz recordar um livro que ganhei do Professor Claudio Poritlho na época da Faculdade, Escuta Zé Ninguém – Wilhelm Reich, que o Original alemão é “Rede an den kleinen Mann” (Pequeno Homem – Pequeno Canalha). Em suma o livro de cunho mais psiquiátrico, segue a mesma linha deste artigo, mostrando como a inveja advinda da consciência da própria mediocridade pode ser lesiva às pessoas iluminadas.

    Aprecio muito o lema dos Livros de Reich:
    “Amor, trabalho e sabedoria são as fontes da nossa vida. Deviam também governá-la”.

Comente