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Um Paraná novamente competitivo

Matéria da Revista Ideias Economia – Edição Especial

A economia paranaense experimentou momentos de virtuosismo entre a segunda metade da década de 1990 e o biênio 2003-2004, quando a participação do Estado na formação do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro marcou 6,44% e 6,31%, respectivamente.

Dois fatores contribuíram mais significativamente para que o Paraná alcançasse tal resultado. O primeiro foi o preço recorde das cotações das commodities no mundo. Como maior produtor brasileiro de grãos o Estado surfou na onda global e ampliou sua relevância nas vendas externas nacionais.

Na outra parte estava o recente processo de industrialização da economia estadual, especialmente com a instalação do parque automotivo. As montadoras, assim que iniciaram suas operações à plena carga, passaram a responder por fatia significativa da geração doméstica de riquezas. O vento estava a favor pelas boas condições de venda de carros no mercado brasileiro e pela inserção dos automóveis leves na pauta estadual de exportações.

O ritmo da economia paranaense não se sustentou, contudo. Pior, perdeu oxigênio a partir de 2005, a despeito dos incontáveis e incansáveis esforços empreendidos pela iniciativa privada para manter a aceleração. Enquanto o PIB brasileiro cresceu 4,0% ao ano entre 2003 e 2010, o paranaense variou 3,7%, o que fez o peso econômico do Estado no total do País recuar de 6,4% para 6,0%, com média de 5,92% entre 2006 e 2009.

À primeira vista a perda de embalo poderia ser atribuída à orientação macroeconômica do governo federal, que prejudicou especialmente a matriz exportadora e o agronegócio do Estado. Somado a isso, houve declínio da produtividade física e rentabilidade financeira da cadeia rural devido às sucessivas estiagens, aos problemas fitossanitários e à ausência de políticas federais compatíveis com o grau de risco setorial.
No entanto, um olhar mais apurado permite interpretar que a predominância deliberada de uma relação conflituosa entre o governo estadual e o empresariado teve efeitos perversos sobre a evolução estadual. A briga contra o capital se refletiu no acanhado comportamento econômico paranaense.

Entre outros casos de menor repercussão, o Paraná deu de ombros para investimentos como os das japonesas Toyota e Yokohama e a norte-americana Guardian. Suprimiu, com isso, produto potencial ao ser rigorosamente desprezado por outras grandes companhias nacionais e estrangeiras, que programaram a implantação de empreendimentos industriais de vulto no Brasil.

Em paralelo, o Estado ficou quase à margem dos projetos e recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Combinado a este fator, a deterioração da infraestrutura, especialmente na área de transportes, foi outra variável a influenciar o amargo desempenho econômico dos últimos tempos.

Ao longo da década passada, por exemplo, o Paraná perdeu espaço e divisas também por conta de problemas estruturais e administrativos no Porto de Paranaguá. Exportações de produtos do complexo soja (grão e farelo) migraram para os portos de Santa Catarina, especialmente São Francisco do Sul.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) revelam que a participação de Paranaguá no volume total de vendas externas das mercadorias produzidas no Paraná caiu de 89,4%, em 1996, para 82,6%, em 2003, e 75,1% em 2010. Enquanto isso, o escoamento das exportações de produtos paranaenses por São Francisco saltou de 2,6%, em 1996, para 6,6%, em 2003, e 14,8% em 2010.

“Por um bom período carecemos da construção de um saudável ambiente de negócios para a preservação da competitividade do Paraná e para a atração de projetos estratégicos para o Estado”, avalia Gilmar Mendes Lourenço, economista e diretor presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes).

Para Lourenço, a retomada de um processo consistente de recuperação e crescimento da economia paranaense exige “harmonizar componentes virtuosos, exógenos e endógenos, presentes no tecido produtivo e social do Estado, especialmente nos anos 1960, 1970 e 1990 (precisamente no segundo quinquênio, com repercussão plena nos primórdios do decênio de 2000), e ausentes desde 2005”.

Mesmo sem atrair novos investimentos, o resultado da maturação das unidades dos complexos automotivo, agroindustrial, de refino de petróleo e álcool e de madeira e papel, implantadas no final dos anos 1990, ainda permitiu a elevação da participação paranaense no Valor da Transformação Industrial (VTI), no Brasil. O índice pulou de 5,2%, em 1996, para 7,3%, em 2009.

Com isso, o Paraná ficou com a quarta colocação no ranking das economias industriais regionais, suplantando o Rio Grande do Sul. Para o governador Beto Richa, o dado é significativo e indicativo da importância do fortalecimento do parque industrial para a economia estadual. “Nosso propósito é fazer com que o Estado reviva o ciclo de industrialização. Para isso hoje existe diálogo, investimento em infraestrutura e, principalmente, segurança jurídica”, afirma Richa.

O governador ressalta que os novos instrumentos de incentivo oferecidos pelo programa Paraná Competitivo, lançado há seis meses, já permitiram a confirmação de investimentos de R$ 1,3 bilhão no Estado. De acordo com Richa, os valores anunciados fazem parte de negociações que estão sendo realizadas com diversas empresas para a implantação de novos empreendimentos ou ampliação de plantas industriais. “Estes primeiros números revelam o bom ambiente de negócios criado no Paraná”, destacou Richa.

Richa reforça que a nova política torna mais flexível a negociação com os investidores, mas ressalta que todo incentivo concedido sempre leva em conta os interesses do Estado. “Estamos analisando os casos individualmente, levando em conta as necessidades dos empresários e o que é melhor para o Paraná”, afirmou.
Entre os empreendimentos está a construção de uma usina de biodiesel na Lapa, região metropolitana de Curitiba. O investimento da Potencial Petróleo na planta paranaense será de R$ 88,5 milhões. Outro exemplo de investimento apoiado pelo programa Paraná Competitivo é o da Sumitomo, indústria japonesa de pneus que confirmou a instalação de uma unidade no município de Fazenda Rio Grande. O projeto prevê a aplicação de R$ 560 milhões. Além destes, também se destaca a ampliação da planta da Arauco, em Jaguariaíva, que receberá um aporte de R$ 272 milhões.

“A concretização do desejo político de revisão de rota, rumo à recomposição relativa do espaço econômico regional no País, exigirá a montagem e execução de uma contemporânea amarração institucional entre as instâncias públicas e privadas atuantes no Paraná”, avalia Gilmar Lourenço. Segundo ele, para voltar ao patamar perdido, o Estado terá que alcançar taxas de crescimento superior à média brasileira.

É nessa perspectiva que o governo estadual trabalha, afirma o secretário da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Ricardo Barros. Na mesma linha, o secretário de Infraestrutura e Logística, José Richa Filho, destaca os esforços da atual administração para desobstrução dos gargalos de transporte constituídos nos últimos anos. “Além de incentivos fiscais, a tarefa imposta ao Estado é eliminar o descaso com a recuperação, aprimoramento e ampliação da infraestrutura”, diz.

A alavancagem do PIB do Paraná também impõe passos largos a uma jornada de reconstrução das bases e da cultura técnica do planejamento de longo prazo no Estado. “Trata-se do resgate do exercício de fixação de referências futuras para as decisões presentes, esquecido por aqui no decorrer de um razoável intervalo de tempo”, ressalta o diretor presidente do Ipardes.

Resgatar o processo de crescimento impõe o cumprimento tarefas como a de sintonizar as demandas nacionais e internacionais de investidores com as potencialidades do Estado. Nessa linha, ganha papel de destaque a organização da atuação de atores regionais. Entram nesta lista as entidades de representação empresarial e de trabalhadores, universidades públicas e privadas, escolas de formação profissional e técnica, institutos de pesquisa, além, é claro, das diversas instâncias do poder público.

O atual governo rema neste sentido, com iniciativas políticas na direção da montagem de um novo arranjo institucional, da execução de uma cirurgia nas finanças públicas, capaz de assegurar espaços fiscais para novas inversões pesadas, com relevante participação das organizações empresariais. “Trabalhamos para a restauração de um clima propício à realização de negócios no Paraná”, diz Ricardo Barros.

Para ele, essas ações estão representadas na mudança de postura e atitude do Estado em relação aos interesses da iniciativa privada e deve contribuir, de forma relevante, para a reconquista dos ingredientes de crescimento econômico sustentado, com maior grau de interiorização e inclusão social.

De toda forma, sustenta o governo, os resultados da empreitada iniciada nesta gestão começam a aparecer em duas frentes: o desempenho econômico corrente e o retorno do interesse de investidores potenciais pelo Estado. No que se refere à performance econômica, o Paraná exibiu indicadores de crescimento superiores à média brasileira nos primeiros quatro meses de 2011, como por exemplo produção industrial (3,8% versus 1,6%), massa real de salários industriais (8,9% x 6,1%), vendas reais do comércio varejista (9,4% x 8,2%), além de a Região Metropolitana de Curitiba ostentar a menor taxa de desemprego do País – 4,4% da População Economicamente Ativa em maio de 2011.

No campo dos novos projetos de investimentos, despontam os segmentos de veículos e autopeças, eletroeletrônica, pneus, painéis de madeira, embalagens, informática, telecomunicações, transportes, química e fertilizantes, cimento, carnes, construção civil, dentre outros.

O Governo do Estado negocia incentivos do programa Paraná Competitivo com pelo menos 70 grupos empresariais interessados em ampliar ou implantar novos empreendimentos no Paraná. “Colocamos o nosso Estado novamente na rota dos investidores e estamos apoiando as empresas que já instaladas em municípios paranaenses interessadas em ampliar a produção”, afirma o governador Beto Richa.

“Temos várias outras montadoras e empresas desse setor analisando a possibilidade de investir no Paraná”, afirma o secretário de Estado da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Ricardo Barros. “A intenção é oferecer uma atmosfera favorável ao setor produtivo, concedendo incentivos e condições para as empresas investirem aproveitando o potencial de cada região do Paraná”.

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