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Murakami na Ponta dos Ganchos

Foto: Divulgação

Jussara Voss em seu delicioso texto para a Revista Ideias conta sobre Murakami, chefe do Kinoshita, que ensinou os princípios da culinária zen para um seleto grupo


O corte preciso e a atenção com o preparo da comida: para ressaltar os sabores

Naquele momento, parece que eu só escutava a semente de gergelim explodir delicadamente pelo toque da haste entre as ranhuras do suribachi, o pilão japonês.

O som produzido era capaz de provocar, mesmo que por um estalo de segundo, a sensação de estar viva. Acho que é isso que todos queremos. Deixei-me envolver.

O vento na manhã daquele dia de outono era gelado, mas para a sorte de quem participava da oficina com Tsuyoshi Murakami, o sol brilhava com intensidade na Ponta dos Ganchos, no litoral de Santa Catarina, e amenizava o frio. Vou tentar descrever.

Suribachi também é o nome do vulcão da ilha de Iwo Jima famosa pela fotografia com a bandeira dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e o nome do instrumento fundamental para Toshio Tanahashi, mestre da culinária zen conhecida como Shôjin Ryori, originada no budismo. Devo confessar que, mesmo admirando o chef do restaurante Kinoshita, em São Paulo, foi isso que me atraiu para aquele local.

A possibilidade de estar próxima da cozinha meditativa foi irresistível para mim, uma vez que não tive a oportunidade de participar dos dois jantares realizados no Brasil pelo chef japonês quando esteve aqui para divulgar a culinária de devoção, que não utiliza produtos de origem animal, ou plantadas com agrotóxicos ou fertilizantes e não usa nenhum equipamento na cozinha. Para tirar o melhor sabor dos alimentos, o chef, que fechou seu restaurante em Tóquio e viaja pelo mundo divulgando seu trabalho, além de dar aulas numa universidade, medita quando cozinha. Mesmo não sendo vegetariana, confesso que já fui, antes de virar maníaca-gourmet; continuo buscando o sabor mais puro e a harmonia nas refeições – na vida também, naturalmente. Paz interior e mente sincera. Acho que nasci budista sem saber. Ioga na juventude, por muitos anos, ou a leitura de Sidarta, de Hermann Hesse, ou as aulas de tai chi, já adulta, talvez tenham contribuído, mas, na verdade, não sei o que me fez seguir assim. Intuição. Não é nada demais, apenas tentando traduzir em ações aquilo em que acredito. Talvez, como o vulcão adormecido, eu também esteja querendo acordar. Mas isso é outra história. Aqui, quero dizer que se você não conhece Murakami, na próxima viagem a São Paulo trate de agendar um jantar no Kinoshita. Além da comida maravilhosa, com sorte, pode ser brindado com um show musical.

Murakami canta e bem, na Ponta dos Ganchos engrossei o coro e concluí que preciso voltar a cantar. Outra coisa que me deixa viva. Só conhecendo Murakami para entender. Ele é especial e um cozinheiro como poucos – assunto para outra crônica, é claro. E se nunca colocou os pés na ponta de terra que beija mansinho o mar claro de Governador Celso Ramos, está na hora de programar um fim de semana lá. É o paraíso aqui perto, juro. Não é barato, mas para os gourmets dispostos a qualquer coisa por uma boa comida e emoção a sacada é participar do Ciclo dos Chefs; já tinha tido a oportunidade de conhecer mas, desta vez, o nirvana estava ao lado. Resumo: passar três dias num lugar paradisíaco, aprendendo a cozinhar, afiar facas, cortar legumes, fazer molhos e provar comidas simples e saborosas, com pessoas especiais. É um pouco de um sonho que teimo em querer realizar. Finquei minha bandeira na ilha catarinense. Não por acaso.

Confira as atrações de julho da Ponta dos Ganchos http://www.ciclodechefs.com.br/

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