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As vendettas de Campana

De Zé Beto Maciel

Fábio Campana está um escárnio só. Seu último livro – A Arvore de Isaías, Travessa Editores, 157 páginas – é uma prova disso. Lá está Campana em seu estado bruto, gasoso e depurado, destilando seu veneno doa a quem doela. Se o leitor calçar o sapato de uma das 39 crônicas do livro, azar dele. Campana cutuca feridas, oferece curare aos desvalidos, não perdoa os inimigos, mas abençoa os chegados e considerados. “São crônicas vadias, com um tanto de escárnio e prosa”, sentencia.

Há algum tempo, nos seus livros, recorre a Foz do Iguaçu dos anos 50 e 60. Nasceu e viveu por essas terras nas suas duas primeiras infâncias até se radicar em Curitiba e só sai de lá, de tempos em tempos ao litoral e de resto, só se for a trabalho. De Foz, lembra da família, principalmente dos Vera, do avô, avó, dos tios e tias.

Particularmente, lembro que os Vera se instalaram na quadra ao largo da esquina das ruas Marechal Floriano e Quintino Bocaiúva, em sete terrenos amplos para os dias hoje, construíram suas casas e mais interessante, formaram uma espécie de vila: cada imóvel tinha um portãozinho que ligava ao outro. Sempre achei isso um símbolo da identidade da família paraguaia-espanhola.

Voltando a Campana, deste O Guardador de Fantasma, Todo o Sangue, Ai e O Último Dia de Cabeza de Vaca, as memórias fronteiriças são recorrentes e também pontuam A Árvore de Isaías. Em Vá Pensiero, segunda crônica do livro, traz um pouco da história de sua família, marcada por mulheres briosas e homens errantes. “Venho de uma linha de povoadores. Meu avô materno, Vicente Ferreira, filho de Apolônio e sobrinho de Benigno, que lutou na guerra contra o Lopez e chegou a presidente do Paraguai, teve mais de setenta filhos registrados e outros extraviados na região que vai do Alto Paraná à Bacia do Prata”…e assim se segue no livro.

Eu sou da turma dos Lopez. Meu pai, filho de Paulino Maciel e Helena Lopez, me contava que tinha dois tios – um barra pesada e outro um deliquente menor, um bêbado. Trifo Lopez, esse sim, era perigoso. Com um facão e um chicote na cintura, fazia tremer qualquer vivente. Se achava a mocinha engraçada, a tomava para si. Qualquer resistência, cortava os cabelos dela, a facão. Meu outro tio, um coitado, perdeu tudo o que tinha no Segundo Distrito (atual Porto Belo) e vivia de bar em bar, tomando todas. Seu apelido: Litro Lopez. Dos meus tios, meu pai herdou a maestria com a faca (descascava uma laranja que era só ele) e o chicote (deu uma surra num desafeto depois de um jogo entre o ABC e o Iguaçu). Do tio Litro, a hiperestesia ao álcool. Quando bebia, o que era raro, assustava os turistas com histórias de onças devoradoras e insetos maiores do que palma da mão.

Pulando mais esse parêntese, não pense que Campana se restringe as histórias da fronteira. Ele dispara contra governadores, assessores, à esquerda e aos ex-amigos. Quem são o “Pequeno Canalha” e a “Aranha Bailarina”, personagens de duas crônicas n’A Árvore de Isaías? Ao pequeno canalha vai uma pista. O dito cujo é crítico literário e escreveu um livro da qual Campana e Dalton Trevisan são personagens principais. De Trevisan, o desafeto foi brindado com o conto “Hiena papuda”. Agora da aranha bailarina, eu me arrisco, mas vai perguntar ao Campana.

“Não era essa a minha revolução. Nessa noite de Tirana, pensei nos amigos, nos companheiros de luta, e percebi que tinha por eles um grande respeito, mas já não me via como membro do partido ou da comunidade que o representava. Entendi que eu passara a ser um divergente em tudo”, escreve Campana sobre seu particular rompimento com os comunistas.

No livro traz ainda relatos do encontro com José Sarney em 1987, que no estouro da crise de governo, passam horas, Campana e Nego Pessoa, em conversas com o presidente sobre literatura para desespero de assessores e outros políticos à espera. Da política, que reconhece como principal ganha pão, delimita o campo de ação. “Gastei a vida na política para ganhar o pão. Sem direito á adicional de insalubridade. Dediquei tanto tempo, tutano e neurônios à política que acabei confundido com ela. Há gente que acredita que eu adora a política. Não sabe o quanto é enfadonho esse jogo bruto, pouco criativo e de personagens cada vez mais medíocres, o que reflete apenas a degradação moral e espiritual da sociedade de nosso tempo”.

Questo é Campana que como intróito cita Guimarães Rosa: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Zé Beto Maciel é jornalista em Curitiba

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