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“Argumento de Marco Aurélio é falho e mal elaborado”, diz o Padre Ricardo Hoepers

O Padre Ricardo Hoepers, preparadíssimo, decidiu contestar o voto do ministro Marco Aurélio de Mello a favor da liberação do aborto de anencéfalos. É uma opinião consistente que merece ser lida.

“Hoje é consensual no Brasil e no mundo que a morte se diagnostica pela morte cerebral. Quem não tem cérebro não tem vida”, disse. “Aborto é crime contra a vidaem potencial. Nocaso da anencefalia, a vida não é possível. O feto está juridicamente morto.” (Frase de Marco Aurelio na argumentação do seu voto a favor da descriminalização do aborto em anencéfalos, em 11/04/2012)

‘Caro Ministro Marco Aurélio de Mello:

É uma pena ouvir de um magistrado um argumento tão falho e mal elaborado. Porém tenho certeza, que provavelmente foi uma assessoria desatualizada que lhe passou informações desencontradas.”

Assim começa a contestação ao voto do ministro Marco Aurélio Mello, em forma de reflexão, enviada ao ministro ( cópia à coluna) por padre Ricardo Hoepers. O sacerdote curitibano faz doutorado em Bioética na Academia Alfonsiana, em Roma.

Hoepers foi por anos pároco de São Francisco de Paula, em Curitiba. É apontado como um dos nomes mais respeitados intelectualmente do clero paranaense, tendo em Curitiba se notabilizado pelo magistério e constante participação no mundo universitário, em defesa de temas básicos da Igreja, como a questão do direito à vida.

“MEDICINA É MAIS SÉRIA”

E prossegue padre Ricardo Hoepers::

“Está correto que hoje predomina o conceito de morte cerebral, mas ele não é um consenso na ciência. A começar pelo conceito de “brain death” que foi traduzido como “cérebro”, porém, não contém a totalidade do sentido inglês que é mais abrangente e equivaleria a “morte encefálica” ou “morte cerebral total”. Isso para não cairmos exatamente no risco de compreender como o Ministro, “quem não tem cérebro não tem vida”. Ainda bem que o Ministro não é médico, pois com esse argumento cometeria graves erros. A medicina, graças a Deus, procura ser mais séria nos seus padrões de avaliação e considera que quando um indivíduo sofre ou cessação irreversível das funções circulatórias e respiratórias, ou a cessação irreversível de todas as funções do cérebro inteiro, incluindo o tronco cerebral, está morto.”

PROTOCOLOS INDISPENSÁVEIS

Marco Aurélio Mello: a correção do doutorando em Bioética

O doutorando em Bioética na Alfonsiana de Roma diz, em seguida, dirigindo-se ainda ao ministro Marco Aurélio Mello:

“ Assim, para chegar a essa conclusão existem protocolos indispensáveis a serem cumpridos. Tais critérios estão baseados na constatação clínica de um coma aperceptivo, na ausência de reflexos e movimentos supra-espinhais, exames subsidiários que demonstrem a ausência de atividade elétrica cerebral ou de atividade metabólica, etc. Então, no mínimo, segundo o argumento do Ministro, a mãe terá que passar por todos esses critérios para que possamos comprovar que a criança anencefálica está morta, o que seria ridículo, pois todos os testes determinarão o contrário, que a criança anencefálica está viva e, assim, tendo vida é pessoa e é juridicamente protegida. Se não querem chamar de aborto, porque a criança está em fase terminal, “quase morta”, então poderíamos chamar de eutanásia, porque antecipamos a morte de quem ainda está vivo. Ambos são crimes e ferem a dignidade da pessoa.”

A FALÁCIA DO MINISTRO

Neste ponto, da “antecipação da morte de quem está vivo”, parte Ricardo Hoepers classifica os argumentos do ministro do STF de falácia: “Naturalmente que eu não gostaria de ter chegado a esse ponto desnecessário de argumentação, mas a falácia do Ministro é irresistivelmente objeto de discussão para quem preza e acredita nos critérios da boa medicina.

Por isso, gostaria de afirmar com toda clareza que quando falamos de Anencefalia e morte cerebral estamos falando de quadros que exigem procedimentos completamente diversos, porque são avaliados conforme sua própria complexidade. E para recordar o que significa complexidade lembro ao Ministro, que a literatura médica relata casos de mulheres grávidas com morte encefálica, que apoiadas pelos aparelhos levaram a gravidez até o final, salvando assim a vida da criança. Neste caso, essas mulheres ”sem cérebro”, como ficariam diante do argumento do Ministro? Isso para dizer que a morte encefálica ainda não é consenso, pois a ciência não se conforma com o mero consenso. O consenso não é o suficiente para definirmos quem vive e quem morre… A vida é muito mais e, todos têm o direito de vir à vida e viver…

Pe. Ricardo Hoepers – Doutorando em Bioética, Accademia Alfonsiana, Roma, 12/04/2012”

8 Comentários

  1. Doutor Prolegômeno Responder

    O máximo dos eufemismos foi usado um grande jornal que chamou o aborto de “parto antecipado”. Essa é campeã. Agora, o caminho está aberto para outras interpretações. As teorias eugenistas, travestidas de humanismo, afinal acabam triunfando, mesmo sem o nazismo.

  2. salete cesconeto de arruda Responder

    Demagogia e nada mais!
    Espere até ter um FETO SEM CÉREBRO EM SUA BARRIGA e depois nos conte como fica seu estado emocional, psíquico, espirtual
    Antes disso seria DIGNO deixar que as mulheres decidam sobre seus DIREITOS E SUA SAÚDE MENTAL E FÍSICA pois ninguém é obrigado a abortar. O faz se não tiver condições. O resto é BURRICE E MALANDRAGEM DE QUEM QUER MANTER O PODER SOBRE O CORPO DAS MULHERES COMO NO TEMPO DA INQUISIÇÃO.
    Essa é a verdade.

  3. enfant terrible Responder

    Pura perfumaria! Falaciosos são os argumentos do Sr. Padre Doutorando. E como ele mesmo disse em seu “belo texto” quando disse que ainda bem que o Ministro Marco Aurélio Mello não é médico, ainda bem que ele Padre Doutorando em Bioética não é jurista, ou magistrado. Quando escreve que o feto anencéfalo tem vida e logo se tem vida é protegido pela lei, comete uma besteira tremenda. Primeiro do ponto de vista biológico-fisiológico: em estudo do Hospital de Clínicas de UFMG, num período de 10 anos, ocorreram 11 casos de anencefalia. Destes 11 casos, 47% morreram no primeiro dia após o nascimento; 44% entre 1 dia e 1 semana; 8% entre 1 semana e 1 mês e 1% com cerca de 1 mês. Na literatura científica, o caso de maior sobrevida de um anencéfalo foi de 1 ano e 2 meses.
    Segundo do ponto de vista jurídico: o Código Civil brasileiro adota a teoria natalista, ou seja só é considerada uma pessoa quem NASCE com vida. o nascituro (feto) tem apenas garantias de expectativas de direitos subjetivos, porquanto ainda não é uma pessoa, até porque há apenas uma expectativa de que venha a nascer com vida. Se os nascituros já tivessem direitos como qualquer outra pessoa vivente, todo o Direito das sucessões por exemplo, teria que ser mudado.
    Por fim, deve o padre futuro doutor entender que: vivemos num estado laico; somos uma democracia; o ministro tem direito de ter a opinião dele, assim como o padre tem o direito a ter a própria opinião, eu a minha e etc; temos inclusive o direito de discordar das opiniões dos outros. E como vivemos numa democracia, num Estado de Direito, temos uma Constituição que foi brilhantemente defendida e brilhantemente interpretada neste julgamento do Supremo. Cabe a própria mulher ter a liberdade de escolher entre sofrer por 9 meses uma gestação como essa, ter o filho anencéfalo e conviver com ele por no máximo 1 ano e alguns meses, com toda a carga de sofrimento financeiro, espiritual e emocional que isso trará, ou, ter sua dignidade e autonomia respeitada para interromper essa gestação.
    Talvez se o padre futuro doutor em bioética iniciasse um movimento com seus colegas padres para que a Igreja Católica destinasse apoio financeiro, médico e psicológico a essas mães, através de recursos do Banco do Vaticano, fosse muito mais útil do que querer desacreditar o conhecimento jurídico do Ministro Marco Aurélio Mello que é infinitamente maior que o dele.
    Parabéns ao STF. É bom saber que estamos superando os tempos das trevas medievais, evoluindo e escapando pouco a pouco da ditadura eclesiástica que durante séculos produziu apenas miséria, guerras e muita firula.

  4. Meu caro Padre Ricardo.
    Respeitando o seu cabedal eclético, quero dizer na minha ignorância,que neste caso, repito, neste caso, viver é muito mais que sómente respirar.
    O exemplo da mãe que teve um filho mesmo sendo anencefálica infelizmente me traz a imagem de uma criança olhando para uma pedra e chamando-a de mãe. E esta mãe sabe que foi mãe? Qual a relação entre mãe e filha em toda sua plenitude?
    Portanto vamos parar de “lero lero” e se quiserem chamar de aborto, que assim seja.
    Amém.

  5. mais um ignorante religioso que nado sabe do queestaw falando, a igreja depois nado sabe porque estão perdendo fieis, não tem o mínimo senso de realidade, esses patronos não sabem o que é parir, não querem nem saber se a vida da mulher está em risco, atraso total

  6. Accademia Alfonsiana???? Vamos parar de brincadeira. Essa accademia é de teologia moral. Levar a sério qualquer comentário sobre biologia vindo de uma formulação teórica desta academia é apenas demagogia para salvar as aparências da falida ideologia católica.

  7. Muito comoda a posição daqueles que compartilham e compactuam com todos os mecanismos que essa sociedade estabeleceu para manter a exploração e o parasitismo de seres humanos contra outros seres humanos (e contra todos os demais seres vivos ) e que agora tentam se passar “POR DEFENSORES DA VIDA”, tentando protelar a morte de quem já se sabe não tem qualquer possibilidade de vida, usando argumentos que tentam definir vida como um simples fato biológico, a união de um óvulo com um espermatozóide, e que teria como ultima ( unica na verdade) função de receber uma ALMA, crença essa que sustentaria os dogmas de algumas religiões, numa simplifacação grotesca da idéia de Deus, que para esses supostos “religiosos” seria uma “energia inteligente” tão mesquinha, capaz de só acolher como uma de suas criaturas protegidas ( eleitas) aquelas à quem “Ele” tivesse dado essa Alma no momento da fecundação do óvulo.
    Seria admitir muita ingenuidade não fosse fácil perceber a má fé de tentar se passar por defensores da vida aqueles que na verdade são parasitas e que vivem sem nada produzir ou se apropriando da produção de outros seres vivos .
    Que tenham então a coragem de não aceitar também a interrupção de uma gravidez tubária, pois ali esta um óvulo que foi fecundado e que na verdade já é um embrião.

  8. Concordo com o padre Ricardo. Eu sou resultado de um aborto que não deu certo, e trouxe sérias consequências para minha mãe e eu. Alguém disse que o abortou é uma solução rápida para um problema eterno e eu concordo. É muito fácil relativizar essa questão, transformando o feto em em um cisco a ser varrido. O difícil é considerar as consequências psicológicas, marcas e traumas que ficam na mulher que abortou. Eu desconheço uma só que não tenha se arrependido ou ficado com alguma sequela, ainda que o aborto tenha sido feito em clinica de alto padrão. O melhor, como disseram, é nascer tartaruga, pois assim se tem a garantia de vida desde os ovos.

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