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Manifestações mostram que está morto o projeto lulopetista, diz Gianotti

Artigo de José Arthur Giannottii, professor de Filosofia da USP

VOZES SEM VOTO

Arruaças de baderneiros, violação das regras democráticas, etc. – é assim que as autoridades começaram classificando as seguidas manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Mas terminaram se dando conta de que o movimento é político, embora ainda o pensem como se fosse luta pela tomada do poder.

Tudo parece indicar que também nós podemos ter uma primavera árabe. Utilizando redes sociais, os jovens concentram suas insatisfações num objeto de protesto, saem às ruas e passam a se confrontar com as autoridades locais. E o movimento se repete e se espalha. Entre nós espanta a rapidez com que se tem multiplicado pelo País afora.

Desde o início era nítido que a insatisfação não se limitava ao aumento do preço das passagens. Os jovens entrevistados na TV terminavam afirmando que, dada a péssima qualidade dos transportes públicos, estes não mereciam aumento nenhum. Daí a impropriedade daqueles que têm se oposto ao movimento recorrendo a argumentos técnicos: o custo do serviço, aumento menor do que a inflação, etc.

Os jovens simplesmente estão dizendo que recebem um serviço inadequado e que não encontram canais políticos para exprimir suas insatisfações. Trata-se de uma crise de representação. Se eles estão subordinados ao ritual das eleições periódicas, estas pouco dizem a respeito de sua vida cotidiana. Os manifestantes são vozes sem voto efetivo.

Caem no molhado as autoridades quando proclamam que, estando nós numa democracia, o protesto deveria ser ordeiro e conforme os canais competentes. Esses canais estão viciados. Daí a necessidade de transformar um incidente num evento político. E a manifestação assume esse caráter porque, mesmo deixando de formular palavras de ordem adequadas, as pessoas passam a manifestar suas contrariedades assumindo o risco de apanharem, de serem presas, de se machucarem e até mesmo de morrerem. Igualmente o risco de que baderneiros a elas se juntem, consequência, aliás, da fraca organização política do processo.

O movimento atual é contra a ditadura do discurso feito, destas siglas mortas – PAG, Minha Casa Minha Vida, etc. – executadas sempre aos pedaços. Está morto o projeto lulopetista – essa minha afirmação não nega sua enorme importância histórica. Mas ele se esgotou na repetição esclerosada, na incapacidade de se ajustar às novas situações que ele mesmo, às vezes, propiciou.

Diante de uma dificuldade, apenas oferece um novo pedaço do bolo. E no jogo político, soçobrou num acordão em que PT e PMDB trocam favores e flechadas sem que os problemas reais do País sejam enfrentados. A oposição, por sua vez, não tem projeto, a não ser ocupar um lugar privilegiado nessa troca corrompida. A política atualmente praticada se afoga na farsa da repetição.

Nessas situações politicamente mortas, não é raro que o vigor da política efetiva retome de supetão. Um Jânio Quadros, um Collor de Mello são os exemplos mais recentes. Eles rompem o sistema esclerosado, mas terminam sendo expulsos dele. Este, depois do choque, termina encontrando as vias da renovação conservadora.

Note-se que em São Paulo, na última eleição, Celso Russomanno iniciou esse tipo de disparada, mas tropeçou por causa de um erro de cálculo, precisamente no preço dos transportes coletivos. Não é esse o setor em que a insuficiência de planejamento das políticas públicas se faz mais evidente na vida cotidiana?

“Celso Russomanno, tal qual Collor, quase furou o cerco do sistema esclerosado, mas acabou tropeçando por causa mesmo do transporte público” (Foto: Leandro Moraes)
Os jovens foram para as ruas vociferando contra o beco no qual foram empurrados. Nos últimos tempos este governo quis transformar nossa sociedade num enorme e variado supermercado. Essa modernização transformou as grandes cidades num inferno e o aparelho de Estado no lugar de troca de favores.

Os jovens já têm demonstrado suas opções por outras formas de vida, o que demanda novas formas de politização. Pouco lhes interessa o ritual das eleições em que se diz o que todo o mundo já está cansado de dizer.

Cada vez mais se toma consciência entre nós de que o Estado suga parte importante do produto nacional bruto, sem que devolva os serviços prometidos e necessários a um bem-estar razoável. E os jovens se defrontam de imediato com a farsa em que se transformou a educação nacional, obviamente com raras e nobilíssimas exceções.

Diante do problema mais urgente, pleiteiam mais verbas sem se dar conta da podridão do sistema. Mais do que verbas, é urgente uma completa revisão das instituições educativas vigentes.

A começar pela reeducação dos educadores, que, na maioria das vezes, ignoram o que estão a ensinar. Até há pouco tempo eu me mortificava com este viés do educador se transformar num sacerdote do saber revolucionário, vendo-se sobretudo como um militante de ideias vindouras. Mais do que emancipar, porém, o educador de hoje, quando vem a ser intelectual, precisa deixar florescer. Será ele capaz disso? Mas me parece é que estamos entrando na fase do intelectual minguante.

É sabido que movimentos sociais não se transformam diretamente em movimentos políticos. Aqui, em São Paulo, o estopim da revolta pode ser removido se os novos custos do transporte coletivo forem cobertos pelas empresas que muito têm lucrado com a falta de um planejamento global. Mas isso apenas adormecerá o movimento.

Até agora não surgiu nenhum demagogo capaz de fazer a ponte entre ele e a política. Por sua vez, seria um milagre se o governo federal se renovasse por inteiro, fazendo ampla reforma ministerial e administrativa, abandonando os paliativos e iniciando um programa radical de combate à inflação.

Mas que não invente de fazer agora uma reforma política, porquanto os quadros que estão no poder só podem restringir os direitos democráticos. Caberia esperar, então, que alguns congressistas sejam capazes de construir uma frente superpartidária com uma agenda precisa atacando os pontos nevrálgicos da crise? As vezes, vale esperar um milagre.

12 Comentários

  1. Fora pt, PSDB, PMDB. PSB, Democratas e todos p davida.Fora voce também que protesta contra corrupção etc. mas já ofereceu cafézinho para o guarda de transito ou qualquer funcionário publico quebrar seu galho.Somos os maiores culpados pois quem elege os maus politicos, nós maus eleitores.Muitos reclamam de corrupção mas trocam seus votos por favores.Os politicos são reflexo do que somos.Afinal nós os elegemos.

  2. A verdade nua e crua são os políticos que o povão colocou lá dentro
    pelo voto. Uma minoria é decente mas não honesta. Posso me orgu-
    lhar que não se elegeram com o meu voto. Vamos ver como estes
    eleitores vão sair nas próximas eleições. Com mais algumas bolsas
    “alguma coisa” ou com uma nação mais justa para os nossos filhos…

  3. A IDÉIA DE REPRESENTAÇÃO POLÍTICA NO BRASIL DEPOIS DESTES PROTESTOS FICOU IGUAL A “UM BARCO SEM RUMO ONDE NÃO ADIANTA VENTO A FAVOR!”

    Estes protestos, podem se comparados em termos de desastre , destruição e limpeza ao “estouro de uma grande represa, ou seja, o estrago já foi feito não tem como voltar atrás. É queiram ou não queiram, é “engolindo quadrado ou redondo” ou para o desgosto da esquerda e da direita, será uma nova forma de pensar, uma nova cultura. Isso é só o início, vai aumentar. As instituições que terão que ser mais democráticas e precisam se reciclar e precisam ouvir. O povão quer ser ouvido. O estado nas três esferas de governo no Brasil (federal, estadual e municipal), terá forçosamente de evoluir na sua capacidade de reação democrática! E reagir contra na base do diálogo e não do “cassetete” (só quando necessário) entorno destes grupos minoritários mais radicais e agressivos e contê-los. Até porque não há outro caminho, porque não há líderes com quem conversar sobre isso. Fazer protestos com esta grandiosidade é claro gerará sempre o risco da violência, risco que aumenta na medida em que quem convocou não tem mais uma real liderança sobre o conjunto de quem os segue, e longe está de unificar um discurso ideológico e uma agenda no seu entorno. Controlar a violência não é o desafio do movimento, que é jovem é inconsequente. É dever do poder público.
    Resumindo, o povo voltou a ter um certo prazer de falar em política mas do jeito dele, ou seja, como José Arthur Giannotti disse: “os jovens simplesmente estão dizendo que recebem um serviço inadequado e que não encontram canais políticos para exprimir suas insatisfações. Trata-se de uma crise de representação. Se eles estão subordinados ao ritual das eleições periódicas, estas pouco dizem a respeito de sua vida cotidiana. Os manifestantes são vozes sem voto efetivo. Caem no molhado as autoridades quando proclamam que, estando nós numa democracia, o protesto deveria ser ordeiro e conforme os canais competentes. Esses canais estão viciados!”

  4. ERRADO! QUEM ELEGE OS “POLÍTICOS” (puutz) SÃO AS URNAS ELETRÔNICAS, MAJORITARIAMENTE REJEITADAS PELAS MAIORES POTÊNCIAS PLANETÁRIAS E AMPLAMENTE RECECIONADAS EM SUBPAÍSES COMO O BRASIL SIL SIL SIL SIL SIL!

  5. CLOVIS PENA -fora gato safado! Responder

    Os pronunciamentos dos governantes até agora exaltaram a necessidade de um eficaz combate aos mais violentos.
    Com isto, além de fugir do foco da questão, estão se dirigindo a menos de 1% dos manifestantes………..

  6. O lulopetismo destruiu a esperança em um país decente. É uma peste moral que corrói e cria um aleijão ético. A profissão de fé do lulopetismo reside na crença de que a corrupção é normal e a mentira é aceitável como padrão moral de um país.

  7. Parreiras Rodrigues Responder

    Clap, clap (onomatopéia para aplausos), para o carlos a.r.
    Aliás, o Brasil deveria aproveitar o momento para a celebração dum grande pacto: O governo cobra justos tributos e os investe seriamente e nós não sonegamos; O governo melhora o ensino e nós acompanhamos a vida escolar dos nossos filhos; O governo investe em prioridades eleitas pelo povo e nós respeitamos os bens públicos; Elegeremos representantes sem lhes pedir nada em troca do voto, mas exigiremos decência e comprometimento com as causas populares, não com as de grupos financeiros, econômicos etc e tal; O poder judiciário passa a ter o seu quadro composto por concurso, por merecimentos – fim das indicações políticas, e nós os reverenciamos.

  8. Carlos, você esqueceu do petê, aí cara! – Foi de propósito, ou foi por esquecimento? –
    Esses que vc citou, tirando o pmdb, que é sócio da petezada, nem roubando tão. Se comparados à cumpanherada, suas leves contravenções podem ser julgadas nas Pequenas Causas!
    O petismo ordinário multiplicou por dez, tudo que não prestava na nossa politicalha históricamente velhaca!

  9. cesar eu mesmo. Responder

    Voce foi muito bem aqui, carlos a. r.
    E tem mais, quem mente numa rede social faz parte da corrupção, ou estou errado??
    vejo em minha cidade professores, que acham que sabem tudo, mas que viviam contando piada durante as aulas e agora diz que a falta de educação é culpa dos governos. Aula que era bom nada.

  10. Fazia tempo que estava morto só os petistas fanáticos não percebiam, a paixão ou corporativismo deixam seus deuses cegos.
    O povo está enterrando não só o PT mas muitos políticos de ooutros partidos que desonram seus companheiros, com tudo isso ainda existem pessoas honestas até mesmo dentro do PT, ainda acredito em pessoas honrado.

  11. Vocês elegeram os vagabundos criminosos do PT e agora o PT vai f…vocês com o comunismo no ano 2014 que vem, pois o PT já tem garantia de 40 milhões de votos da Bolsa Família! Na ditadura comunista vocês vão ter salário miseravel como em Cuba, de 10 dólares por mês, não vai ter partidos nem eleições, não vai ter novela nem carnaval, não vai ter FGTS nem 13 salário, não vai ter churrascadas no final de semana e o futebol vai acabar,não vai ter pederastas viados,lesbicas e nem feminismo, vai ter fuzilamentos, mortes, prisões e campos de trabalhos forçados, vai ter ditadura comunista do PT! Isso é o socialismo! A Rússia e Europa do Leste são o Tumulo do comunismo!

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