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Dilma, a solitária

Qual náufraga perdida numa ilhota, ela lança garrafas sobre as ondas e não acha destinatário

Por Eugênio Bucci

A solidão do poder, tratando-se de Dilma Rousseff, é um presídio. Ou, pior, é uma cela incomunicável. A presidente da República já não consegue fazer contato com seus auxiliares, com os parlamentares, com os partidos, com as centrais sindicais, com as ruas – e, principalmente, com a nação. Disciplinada, ela insiste. Marca reuniões com um grupo restrito de ministros, consulta-se eventualmente com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, amiúde, segue as orientações dos profissionais de marketing a seu serviço. E nada dá certo. Como se fosse uma náufraga, perdida numa ilhota em alto-mar, a chefe do Estado brasileiro lança garrafas sobre as ondas, e suas mensagens não encontram o destinatário. Raramente, vão bater no destinatário errado. Sem respostas positivas, ela não vislumbra o que a espera. Sua solidão é sólida como a rocha e enigmática feito a esfinge.

Há um diagnóstico fácil para esse quadro clínico: a falta de comunicação que acometeu o Palácio do Planalto resulta do isolamento que se abateu sobre a presidente. Desesperados, então, seus assessores tentam até o fim, como na canção de Roberto Carlos. Num lance de aparente ousadia, tentam aproximá-la do povo que se manifesta nas ruas e, de novo, erram a mão. Bolam comunicados contundentes, inventam propostas salvadoras, lançam campanhas de televisão e, outra vez, nada funciona. O círculo da presidente não se deu conta de que o naufrágio a que ela ainda sobrevive não é fruto do isolamento, mas o contrário: o isolamento político teve início no naufrágio da comunicação. A ilha deserta em que Dilma se vê confinada não foi a causa da incomunicabilidade. Foi, isto sim, a consequência. Agora, aumentar a dose de comunicação errada não resolverá nada; a comunicação errada apenas piorará as coisas, como o mês de junho deixou claro.

Foi bem revelador o que aconteceu em junho. Diante das passeatas que transformaram as ruas das cidades brasileiras em rios de gente indignada, a presidente da República resolveu falar em rede nacional de televisão. Numa das mais desajeitadas jogadas de marketing da história recente do país, deu respostas a perguntas que ninguém tinha feito. Chamou para si um amontoado de problemas que ninguém achava que fossem problemas dela. Conclamou “pactos” a que ninguém quis aderir. As reclamações dos protestos falavam das tragédias concretas da vida prática: transporte público aviltante, saúde pública miserável, educação deformante e gatunagem do dinheiro público. Dilma respondeu a todas com uma abstração complexa: a reforma política, acrescida de plebiscito e constituinte exclusiva. Esta última, o centro da fala presidencial, soçobrou nas 24 horas seguintes. O plebiscito morreu. Quanto à reforma política – necessária, por certo, gravemente necessária, mas que não era reivindicação de nenhum dos protestos –, ficou a ver navios nas proximidades da ilha deserta. Não se sabe no que vai dar, já que tudo agora depende do Congresso Nacional.

No que era acessório, Dilma emplacou uma coisa ou outra, é verdade. Propôs chamar a corrupção de crime hediondo, e isso pegou. A história dos royalties do petróleo para a educação e saúde parece que também colou. De resto, os artifícios contábeis de bilhões para isso e aquilo foram percebidos como o que de fato eram: artifícios contábeis.

Se a presidente deu respostas descabidas a perguntas não formuladas pelas ruas, não foi por não saber falar. Foi, antes, por não saber ouvir. Para certas situações, acompanhar obstinadamente os índices de popularidade não basta. Para entender com rapidez os anseios e as aflições dos habitantes das cidades médias e grandes, não basta decifrar pesquisas de opinião. Para isso, os governantes precisam simplesmente saber conversar com gente que anda de ônibus, com médicos e pacientes da rede pública e até mesmo com deputados e senadores. É aí que entra esse componente insondável e insubstituível da administração pública: o talento político. O bom político se caracteriza por essa particular habilidade para a comunicação, que envolve o gosto pela conversa, a arte de motivar pessoas e a vocação para liderar. A comunicação do Palácio do Planalto errou a mão definitivamente quando desistiu de ser política, no sentido mais alto da palavra, e se contentou em ser técnica, matemática e meramente publicitária.

Daí vem a solidão da presidente, uma solidão que cobra caro. Dilma talvez não disponha da moeda para pagar seu próprio resgate.

16 Comentários

  1. Dona Dilma até poderia ter boas intenções,mas em primeiro lugar deveria banir de sua volta esta cúpula de ladrões deixada pelo seu queridinho ex presidente.

  2. Para escapar da solidão, a madame deve deixar de ouvir o “Chefe”(conforme denominou IVO PATARRA, em seu livro), e ouvir a voz do Povo, à quem ela muito deve, tanto em promessas quanto em atitudes. Ainda dá tempo de virar a página sinistra de seu mandato e fazer algo que muito melhoraria sua pretensa imagem de “dama de ferro”. Se o fizer, em vez de vaias passara a ouvir palmas.

  3. R. NORTE-SUL DO PARANA- Responder

    ISSO É O PREÇO QUE ELA PAGA POR NAO FAZER AS REFORMAS QUE O PAÍS NECESSITA, O POVO TEM DIREITO. PREFERIU NADA FAZER CONTRA OS MENSALEIROS, SEU COMPANHEIROS DE PARTIDOS, QUE TIRARAM DA BOCA DOS FILHOS DOS BRASILEIROS. CREIO QUE FICOU TARDE, TARDE DEMAIS PARA O CLAMOR CANSADO DO POVO. FALTA POUCO, 2014 TÁ PRÓXIMO, E COM O PODER DO VOTO, DAREMOS A DEVIDA AVALIAÇAO, E SE DESEJAR VIAJAR AO MUNDO TODO, QUE O FAÇA COM SEU DINHEIRO. NAO PODEMOS MAIS FINANCIAR CORRUPTOS. VIVAMOS COM ESPERANÇA, FÉ, E QUE DEUS NOS PERMITA VISLUMBRAR A LUZ FIRME EM DEUS, O VERDADEIRO AMIGO DO POVO.

  4. “Para todo problema complexo, existe uma solução clara, simples e errada” (Mencken). Mas poderia ser de Dilma Rousseff.

  5. Quanto mais só melhor.Já diz o ditado antes ´só que mal acompanhada.Comece a fazer o seu governo esquece um pouco os Ps da vida que o povão vai junto.Todo mundo está com o saco cheio dos PSDBS, PMDBS,PTS. PVS. PDTS.PSCS, sindicatos e etc.As bAses são a causa de todos os males. Da uma esfriada nos aliados coloca os mesmos nus diante da população que ela vai ver o apoio que vai receber.A solidão acaba na hora é só abrir os pedidos de empregos que as bases pedem para dar apoio, diminui os politicos troca por tecnicos competentes.Omesmo serve para o Betão que rifa suas secretarias para obter apoio, faz o mesmo .Tenho certeza que acaba as oposições na hora.Má vontade some..Ai não precisa apoiar ninguém pro T. de Contas.

  6. O maior erro da Dilma foi se cercar dos quadrilheiros do Molusco !
    Ta pagando um preco alto !

  7. É a velha classe média cansada de guerra. seguida de uma juventude que não vê perspectiva na Dilmalândia.
    Nem todo mundo quer viver das bolsas-esmolas. sem estudo e ser improdutivo.

  8. denilson pawowski Responder

    Mesmo dando presentes caros não consegue ter amigos. Tira dos cargos todos os larapios que nomeou e assim tera o povo como seus amigos.

  9. QUEM SEMEIA VENTO COLHE TEMPESTADE.
    QUEM É AUTORITÁRIO DESPREZA O DIALOGO e quem RECEBE HERANÇA MALDITA, PAGA O PREÇO DA ORIGEM DESTA.

  10. Parreiras Rodrigues Responder

    O João Santana deveria preveni-la também para não ser filmada andando.
    Parece um homem, e nada elegante.
    Pedreira falou em “dama de ferro”. A que se foi teve peito (os dois) para encarar quadrilhas com fachadas de sindicatos, como a pelegagem que faz pic-nic na sombra do governo que os subvenciona.
    E, endossando Bucci, oportuno o seu cabeleireiro de 3 paus a visita, aproveitar uma delas e fazer uma lavagem auricular em sua pródiga cliente. Para quando a rua gritar Educação ela não entender plebiscito, quando a rapaziada berrar por Saúde, não responder com constituinte exclusiva e prá turma braba com o preço das passagens dos ônibus, não acenar com reforma política do jeito que o lulismo quer, um puxadinho rebocado e coberto de capim.

  11. cesar - barraquinha Responder

    Qualquer um que levar a sério seu governo, com honestidade vai sofrer a mesma coisa. Puxa saco gosta de reciprocidade, esta é a verdade.Em 60 anos de vida é Nossa Presidente a mais honesta e bem intencionada, ou vocês pensam que o JK era sério com tantos P.S. a sua volta.
    Infelizmente muitos a criticam pura e simplesmente por que não pertence a mesma laia.

  12. O isolamento da companheira presidanta é igualzinho àquele filme alemão, A Queda. A situação é igualzinha, todo mundo tinha culpa menos o “herói”, só ele não admitia que a culpa era só dele, ele é que tinha metido a tigrada naquela roubada. Não desejo à presidanta o mesmo destino do “herói”, mas bem que ela podia assistir o filme para não ter o mesmo fim do “herói”.

  13. A culpa não é da presidente e sim do povo q a elegeu,pois todos sabiam q. um poste sem estrutura logo cai e mesmo assim votaram em um poste sem luz própria só pq um falso eletricista (Lula) disse pra votar neste poste.Agora é tarde .

  14. A manchete não é adequada. Algum mal intencionado poderia confundir com a tênia.

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