Uncategorized

‘Brasil gastou sua poupança na Disney’, diz chefe do Goldman Sachs

Da Folha de S.Paulo:

O Brasil tem um encontro marcado com o ajuste, afirma o economista Paulo Leme, 58.

No comando do banco de investimento americano Goldman Sachs no Brasil, o executivo prevê que vai chegar a conta do deficit nas contas externas -produzido pelo consumo interno turbinado.

Conhecedor da economia (e da política) brasileira, Leme afirma, contudo, que o processo será detonado pela mudança nos EUA e após as eleições no Brasil. Até aqui, diz ele, foi só o ensaio.

*

Folha – Qual sua expectativa para a economia brasileira?
Paulo Leme – Acho que o crescimento deve estar muito próximo a 2%. E, infelizmente, em razão de baixos investimentos e da queda na produtividade, o crescimento sustentável de longo prazo está próximo a 3%, provavelmente abaixo disso, o que é bem menos do que eu esperava há um ano.

O que é longo prazo?
De 3 a 10 anos. A economia mundial tem demorado mais a se recuperar, e a perspectiva de preço de commodities não é favorável.

Internamente, houve uma mudança na política econômica com a adoção de um modelo centrado na expansão da demanda doméstica.
Mas a oferta não está se expandindo. Então, esse aumento do consumo tem levado a um excesso de demanda por bens importados, o que provoca um aumento do deficit em conta-corrente e da inflação.

Qual a contribuição da política fiscal para a inflação?
A política fiscal está muito expansionista, o que aumenta a inflação e contribui para o deficit em conta-corrente. Em vez de gastar com hospitais, escolas, transporte público, o governo está gastando em salários, aposentadorias.

Esse modelo está levando a uma despoupança doméstica, que está sendo financiada por investidores estrangeiros.

Se você toma empréstimos no exterior ou atrai investimento direto estrangeiro e, com isso, investe em indústrias ou atividades que geram receitas em dólares no futuro, o pagamento dos juros dessa dívida está garantido.

No nosso caso, não, os empréstimos foram queimados com turismo da Disneylândia, malas cheias de bens vindas de Nova York ou Miami. Essa conta vai chegar.

E o que acontecerá?
Quando tivermos que pagar esse serviço da dívida, não teremos a receita dos investimentos porque ela foi consumida. Você vai ter que desacelerar a economia, reduzir o consumo e os salários reais, que são fonte da inflação, e isso ocorre através do aumento do desemprego.
Por último, você tem que desvalorizar o real, tornar a economia mais competitiva. Creio que, em 12 meses, o câmbio estará perto de R$ 2,50 e, em dois anos, de R$ 2,75.

Ainda não estamos no ajuste?
Temos o início de um ajuste, mas é pior porque não vai ser completo. Os problemas de falta de crescimento são estruturais, queda de produtividade, perda da competitividade, falta de investimentos. Sem resolver esses problemas, quanto mais você estimula, é como um carro com o afogador quebrado.

O que deverá ocorrer com o crescimento após as eleições?
Para reduzir a inflação e fechar o deficit externo, a economia crescerá pouco, quase estagnada, sem recessão, mas com o desemprego subindo acima de 6%.

Depende do cenário no exterior, e você fica muito vulnerável a grandes guinadas externas. Já tivemos um ensaio em junho, quando houve uma rapidez na saída de capitais do Brasil. O câmbio se desvalorizou rapidamente.

Quando de fato o Fed (banco central americano) resolver subir a taxa de juros, o mercado já terá antecipado isso, o que poderá levar a uma queda dos investimentos ou da capacidade das empresas brasileiras, que estão endividadas em dólar, de rolar sua dívida externa.

O que detonou o pessimismo com o Brasil? Tem a ver com os protestos?
Tanto os investidores quanto a população expressaram, de maneiras diferentes, coisas parecidas, que têm a ver com a perda de conectividade entre a política e os anseios do investidor e da população.

Depois dos protestos, não é difícil concluir que o ajuste econômico ortodoxo não seria muito bem-vindo nas televisões às oito da noite. Então, claramente encoraja uma política de mais riscos.

O que são políticas de risco?
Dobrar a aposta, continuar a aumentar o gasto público. Parte dos pleitos são investimentos em transporte, educação, saúde. É correto. Mas você tem que fazer escolhas, alocar recursos em uma coisa em detrimento de outra. Baixar o preço do transporte terá consequência orçamentária, que vai acabar sendo paga com inflação, que é um imposto que todos pagam.

Alguns economistas dizem que há pouco espaço para cortes de gastos do governo.
Os gastos discricionários são mesmo uma parcela pequena. Mexer na parte estrutural de fato é extremamente difícil, mas não é impossível.

A gente decidiu aumentar a participação dos funcionários do setor público, que é muito onerosa. O salário mínimo tem uma consequência fiscal e sobre a inflação. São escolhas. Não temos feito as melhores escolhas.

A economia pode interferir na perspectiva de reeleição da presidente Dilma Rousseff?
Se a gente relacionar as manifestações populares ao baixo crescimento, mas especialmente à falta de correspondência entre a carga tributária e os serviços públicos, isso já mudou a perspectiva eleitoral, em que parecia altamente provável a reeleição da presidente para um cenário que pode ser o de uma eleição bastante competitiva.

Qualquer que seja o próximo governo terá um primeiro ano difícil?
Sim, pode ser um pequeno desafio ou pode ser problemático. Acho que não teremos nenhum problema na escala como tivemos, por exemplo, em 1999, em 2002 para 2003, simplesmente porque as condições iniciais hoje são muito mais favoráveis do que foram nesses momentos. Você tem muito mais reservas internacionais, você não tem dívida fiscal dolarizada. Agora, tudo depende da reação desse governo e do seu sucessor.

RAIO-X PAULO LEME

ATUAÇÃO
É chairman do Goldman Sachs Brasil. Antes, foi um dos responsáveis pela análise econômica para a América Latina do banco, em Nova York, e economista sênior no FMI (Fundo Monetário Internacional)

FORMAÇÃO
Graduado em engenharia elétrica pela UFRJ e mestre em economia pela Universidade de Chicago

4 Comentários

  1. Parreiras Rodrigues Reply

    Lula e Dilma repetirão a cantilena contra os realistas que enxergam um país diferente daquele que eles insistem em trabalhar a imagem.

  2. antonio carlos Reply

    Agora a culpa é nossa porque fomos gastar a grana que nos pertence lá na Disney? O meu dinheiro foi conseguido através de muito suor e trabalho. Ao contrário de muito dos nossos políticos vistos em Paris na companhia de suas namoradas. Ou dando uma voltinha em Nova Iorque, a procura de bolsas para comprar. A reação deste governicho da companheira presidanta ao grito das ruas foi baixar as tarifas públicas, mas quem vai pagar a conta desta demagogia toda seremos nós, o povo brasileiro, apesar de vivermos em um arremedo de capitalismo, nele não existe lanche grátis.

  3. renato glotter Reply

    Se a gente levar a sério estes “economistas”, acaba sentando na calçada e passando o resto da vida bebendo água da sarjeta. Cambada de urubus. Que vão dar conselhos ao Delfim Neto.

  4. “Mais uma saraivada de críticas de um agente privado internacional à política econômica brasileira, e isso mesmo com a Selic tendo voltado a subir nos últimos meses.

    O atual primeiro-ministro da Itália é ex-executivo do Goldman Sachs. O atual primeiro-ministro da Grécia é ex-executivo do Goldman Saschs. O atual presidente do BC Europeu é ex-executivo do Goldman Sachs. Mas a Europa está na pindaíba. O Brasil não. No que nos interessa uma opinião “tão neutra” sobre a economia brasileira como a de um executivo do Goldman Sachs? Aliás, o entrevistado é um Chicago Boy… faz parte daquela turminha de ex-alunos do Prof. Milton Friedman que implantou mundo afora políticas que levaram ao desastre econômico de vários países desde a década de 1990.

    Olhem a frase do sujeito sobre os protestos que vêm ocorrendo no Brasil: “Tanto os investidores quanto a população expressaram, de maneiras diferentes, coisas parecidas, que têm a ver com a perda de conectividade entre a política e os anseios do investidor e da população.”. Caray!!! Nunca vi NINGUÉM, seja políticos do governo, da oposição, jornalistas, ativistas, ninguém, dizer isso antes.

    Investidores, que muitos chamam simplesmente de RENTISTAS, em qualquer lugar do mundo querem simplesmente que os governos façam uma política econômica onde a remuneração deles esteja garantida, e ponto final. NADA A VER com os anseios das pessoas que saíram às ruas, reivindicando mais e melhor saúde, educação, transportes, menos corrupção e melhor uso do dinheiro público”. Professor Wagner Iglecias.

Comente