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Por uns segundos a mais

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Por Mary Zaidan

Na quarta-feira, 16, o TSE realiza audiência pública para debater as instruções sobre a propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na TV, que começa dia 19 de agosto e se estende até 2 de outubro. Hora mais do que propícia para colocar em xeque esse instrumento que deveria esclarecer o eleitor, mas que tem prestado enorme desserviço à democracia.

Falsamente gratuito – em 2010 as emissoras tiveram desconto de mais de R$ 850 milhões no Imposto de Renda para veiculá-lo – e falsamente justo, tamanha a barganha com a moeda-minuto em alianças partidárias sem pé nem cabeça, o horário político tornou-se pernicioso à politica. Faz mal a ela. Despolitiza-a

É, ao lado do voto obrigatório – item número um entre os que desejam mudança – e das legendas que se multiplicam como cupins, entulho que só ajuda a distanciar o eleitor.

Criada em 1965 pela ditadura militar, a propaganda política dita gratuita pouco evoluiu. Foi bipartidária, feita com fotos-cartazes tarjados com números que mais lembravam identificação de presidiários; controladíssima, mesmo nos tempos da abertura. E quase nada mudou a partir da Constituição de 1988.

Um terço do tempo é dividido igualmente entre todos os partidos e outros dois terços proporcionais à representação de cada um deles no Congresso. Com 32 partidos, a divisão do terço dos 50 minutos diários significa pouco mais de 5 segundos. Parece nada, mas vale fortunas e cargos a rodo. Não à toa, 21 deles aparecem coligados aos chamados candidatos competitivos.

Pior, por uns segundos a mais se manda às favas a governança do País.

Ministérios e cargos-chaves são distribuídos, como Dilma Rousseff fez há pouco com o de Transportes e o Dnit para garantir o tempo do PR. Vale tudo. Selam-se abraços entre quem nem quer olhar na cara do outro. Desrespeita-se o eleitor.

O resultado compensa: nos dois blocos fixos de 25 minutos cada, a candidata-presidente terá quase o triplo do tempo do tucano Aécio Neves e um sêxtuplo de Eduardo Campos (PSB). Nas inserções ao longo do dia, Dilma terá 426 minutos, Aécio, 184, Campos, 46.

A produção do horário eleitoral deve consumir mais de dois terços dos mais de R$ 900 milhões dos recursos declarados pelas campanhas presidenciais. Caixa dois à parte.

Ultrapassado também na forma, a propaganda infla egos de publicitários. Alimenta uma rica casta de marqueteiros na mesma proporção que incentiva o empobrecimento da política.

Facilita a mentira, transforma a política em entretenimento, algo que ela, definitivamente não é.

Se quem fala em mudança quer mesmo mudar, mexer nisso pode ser um bom começo.

Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília, e na Agência Estado (SP).

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