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Horror revisitado

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Charge do argentino Liniers em homenagem à revista Charlie Hebdo

Nada do que é humano me é estranho, escreveu Terêncio. Haja estômago. O episódio de Paris, quando dois homens invadiram a sede da publicação “Charlie Hebdo” e mataram doze pessoas e feriram outras vinte, me deixou abalado e mais uma vez fui invadido pela sensação de que não há esperança para a espécie.

Entre os mortos, cartunistas que eu amava, Cabu e Georges Wolinski. Os terroristas gritavam “Alá é grande”. Revidavam à publicação de charges do profeta Maomé, em 2011. Foi também um atentado contra a liberdade de expressão. Fanáticos de qualquer catadura não aceitam outra verdade que não seja a sua. Na época, a ira de alas muçulmanas radicais lançou um atentado a bomba contra a publicação.

É preciso pensar um pouco mais esse fenômeno contemporâneo da emergência do terror sempre que se rompe a costura entre dois tecidos culturais diferentes, embora às vezes tão próximos. Os terroristas islâmicos atiram em homens, mulheres e crianças, incendeiam aldeias, destroem tudo o que podem. São capazes de invadir escolas onde meninas estudam, porque em sua concepção, mulheres não devem ter acesso à educação e devem se nutrir apenas da interpretação particular que fazem do Corão, Eles matam seus inimigos, os degolam e mostram seu ato pela internet e pela tevê. Querem nos dizer que todos os que não comungam suas ideias correm o mesmo risco.

Fiquei pasmo ao perceber que há pessoas que acreditava esclarecidas e cultas que tendem a apreciar esses eventos pelos seus aspectos geográficos, estratégicos, militares ou ideológicos, em termos, enfim de poder. A verdade é que não consideram os efeitos desses sobressaltos na vida as pessoas comuns. E no entanto, me ponho a pensar, é provável que essa seja a única coisa que realmente importa.

Talvez se possa caracterizar o nosso tempo como aquele em que o mundo civilizado (aquilo que Orwell chamava de civilização liberal-cristã) é forçado a destampar, absorver e eliminar depressa quantidades consideráveis das imensas reservas de horror do planeta.

Entretempo, é preciso a todo custo evitar a solução adotada pelos êmulos tão numerosos da barbárie. Não há como conviver com os que têm a necessidade mórbida de aproximar-se da abjeção e do terror, penetrá-los e mergulhar neles, para exorcizar o seu próprio demônio. Para o terrorista, qualquer que seja seu credo, o horror é o cotidiano, a rotina, sua vida e sua cultura. É a promessa e a tentativa permanente de destruir a esperança de um mundo melhor.

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