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O PIB, o Congresso e o gigante adormecido

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Helena Chagas

Congresso e PIB são velhos parceiros no jogo político, atuando juntos na maior parte do tempo, quase sempre em nome de interesses convergentes – e não era nem preciso vir a público a delação premiada do ex-executivo Claudio Filho, da Odebrecht, sobre as negociações de projetos e MPs, para se comprovar essa simbiose. Na atual conjuntura, mais uma vez esses personagens parecem estar juntos: o PIB apóia o presidente Michel Temer porque acha que ele tem o apoio do Congresso para aprovar as reformas que seus integrantes defendem; o Congresso apóia o presidente por afinidades e razões diversas, mas uma delas é, certamente, a proximidade de Michel com o poderoso PIB.

Para o Planalto, hoje não adianta muito saber o que vem antes, o ovo ou a galinha, porque os dois estão aí, de olho um no outro. Importa, sim, não perder nenhum desses dois pilares, o que faria ruir o outro quase que imediatamente.

Nesse sentido, os representantes do PIB – o establishment econômico que quer as reformas a qualquer custo – receberam sinais preocupantes na votação em que o plenário da Câmara, nesta terça-feira, derrotou o governo e mandou para o espaço as contrapartidas de ajuste fiscal que seriam exigidas dos estados em troca da moratória de três anos e da renegociação de suas dívidas com a União.

É preocupante porque atingiu o Planalto e a equipe econômica naquilo que eles possuem de mais sólido nesses tempos de Lava Jato e incertezas: o controle do Legislativo e a perspectiva de cumprir uma agenda de reformas que pode botar a economia nos trilhos do crescimento. Não por acaso, essa agenda, com a ameaça do caos que representaria o aprofundamento da recessão, tem sido o principal argumento dos aliados de Temer nos piores momentos, quando precisam combater idéias como o impeachment do presidente, eleição indireta pelo Congresso, convocação de diretas já, etc.

Até agora, a promessa de manter a maioria parlamentar para votar a reforma da Previdência, a mudança nas leis trabalhistas e, quem sabe até, as reformas tributária e política, vem funcionando como bóia de salvação para Michel Temer – ele mesmo já citado pelo menos duas vezes em delações premiadas da Odebrecht. Com seu entorno abalado por seguidas denúncias e popularidade decrescente, semelhante à de Dilma Rousseff nos últimos meses de Planalto, Temer sabe que a narrativa das reformas é a que lhe resta. Se não seduzir mais aqueles que são hoje o sustentáculo do governo, afunda.

Apesar de todos os esforços do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e do próprio Temer para minimizar a derrota no projeto das dívidas dos estados, essa última votação do ano não deixa bons augúrios para 2017. No mínimo, vai exigir do presidente a rearticulação de sua base política, passando pela reforma ministerial e por farta distribuição de poder e cargos entre os aliados.

Não vai ter que ter só para o PSDB, sempre de olho na área econômica e cada vez mais importante na ordem geral das coisas com a queda em desgraça do núcleo duro peemedebista do Planalto. Vai ter que ter também para o guloso Centrão, sobretudo se ficar confirmada a reeleição do deputado Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Cumbuca, aliás, em que o governo não deveria meter a mão, sob o risco de sair mortalmente ferido. Basta lembrar que começou assim a triste história de Dilma e Eduardo Cunha, que acabou por derrubar os dois.

O melancólico final de ano na Câmara dos Deputados não é o fim do mundo para Michel Temer, assim como também não foi, pelo menos ainda, a mãe de todas as delações. Mas estamos diante de um quadro de fragilização contínua do governo. Ou ele estanca isso logo, ou nem o PIB e nem o Congresso conseguirão salvá-lo se aquele outro personagem, normalmente sonolento, resolver acordar: as ruas. O gigante ainda está dormindo, mas o barulho aumenta…

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