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Padilha quer voltar. Temer ainda não sabe o que fazer com ele

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Ricardo Noblat

Aos 20 anos de idade, o poeta francês Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891) já havia escrito 20 livros de poesia. É no poema “Canção da Mais Alta Torre” que estão seus dois versos mais famosos: “Por delicadeza, perdi a minha vida”.

Lembrei-me deles ontem à noite ao ouvir o presidente Michel Temer dizer que Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, voltará ao Palácio do Planalto na próxima semana. Padilha recupera-se em Porto Alegre de uma operação de próstata.

Antes de baixar ao hospital, ele foi acusado pelo advogado José Yunes, amigo de Temer há mais de 40 anos, de tê-lo usado como “mula” para que recebesse em seu escritório um pacote entregue pelo doleiro Lúcio Funaro, hoje preso em Brasília por suspeita de corrupção.

Um dos delatores da Odebrecht contou em delação premiada que Padilha foi o destinatário de parte do dinheiro de caixa dois doado pela empresa ao PMDB. Segundo o delator, o dinheiro costumava chegar a Padilha por meio de Yunes, assessor especial de Temer até dezembro último.

Ao que tudo indica, Padilha recuperará a saúde. Mas dificilmente recuperará as condições políticas para continuar no cargo. Ele pode não saber disso, mas Temer sabe, e sabem ministros e assessores que o cercam. Ocorre que Temer tem um problema que jamais conseguiu resolver.

Apesar de sua longa trajetória de homem público, ele não enfrenta com naturalidade a tarefa de ter que se afastar de um amigo. Por mais que o amigo tenha dado motivos para o afastamento. No caso de Padilha, além de amigo de Temer, ele é um executivo competente.

Atribui-se a Temer a demissão de Romero Jucá (PMDB-RR) do Ministério do Planejamento quando se tornou público seu comentário sobre a necessidade de se estancar “a sangria” provocada pela Lava Jato. Na verdade, Jucá saiu ao concluir que não poderia mais ficar.

Foi premiado por Temer com a função de líder do governo no Congresso. É Jucá que segue mandando no Ministério do Planejamento. Não foi Temer quem demitiu Geddel Vieira Lima da Secretaria do Governo depois que ele tentou suspender o embargo à construção de um prédio na Bahia.

Foi Geddel, pressionado por ministros e amigos, que se convenceu de que deveria deixar o governo. Temer quis fazer do seu amigo Antonio Mariz Ministro da Justiça. Não conseguiu. Mariz sempre foi um crítico da Lava Jato. Quis fazê-lo Ministro da Defesa. Não conseguiu.

Mais recentemente, convidou-o para ser Ministro da Justiça – aí foi Mariz quem não quis. Insistiu para que ele fosse cuidar no ministério do sistema carcerário nacional. Mariz preferiu seguir ganhando dinheiro como renomado advogado criminalista que é.

De volta a Padilha: se ele teimar em continuar na Casa Civil, o mais provável é que continue. O ideal para Temer seria que Padilha voltasse só para arrumar as gavetas e ir embora de uma vez. Mas isso dependerá mais de Padilha do que dele.

Por delicadeza, Temer corre o perigo de ver a Lava Jato instalar-se no Palácio do Planalto a poucos metros do seu gabinete.

(foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

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