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Professor de Harvard acredita que a democracia brasileira está em risco

BBC Brasil,
Steven Levitsky, professor de Ciência Política da Universidade Harvard, dedicou praticamente toda a vida acadêmica a entender o que dá suporte e quais são as ameaças à democracia. Especialista em América Latina, ele lançou recentemente o livro Como as Democracias Morrem (Zahar), escrito em parceria com o colega de instituição Daniel Ziblatt.
A tese central defendida pelos autores é que golpes de Estado clássicos, com uso de armas e fechamento do Congresso, já não são mais aplicados.
As democracias, diz ele, morrem por ataques sutis e sistemáticos contra as instituições. Agora, as atenções de Levitsky se voltaram ao Brasil, onde Jair Bolsonaro (PSL) pode chegar à Presidência da República.
Para o professor de Harvard, trata-se de uma ameaça real à jovem democracia brasileira – ainda que considere um exagero as interpretações de que o capitão reformado seja fascista -, como ele explica na entrevista concedida por telefone à BBC News Brasil.

BBC News Brasil – Por que eleitores, em diversos países do mundo, estão votando em candidatos radicais?
Steven Levitsky – Isso não acontece muito frequentemente. Ocorreu nos Estados Unidos porque os americanos acham que a democracia estará sempre assegurada. Não importa se formos descuidados, não importa quem elejamos, ninguém conseguirá ferir nossa democracia. É um evento assombroso os americanos terem eleito alguém que não demonstra respeito pela Constituição.
Na maioria das vezes, o povo não gosta de autoritarismo e não vota em populistas.
Mas, às vezes, isso acontece porque os eleitores estão bravos com o status quo, com os partidos políticos e com a classe política em geral. Um populista é alguém que basicamente promete colocar tudo isso em um saco para jogá-lo no rio.
Quando eleito, ele passa a atacar as instituições democráticas. Há muitos exemplos no mundo, e o Brasil é um deles.

BBC News Brasil – De que maneira a onda conservadora que se vê nos Estados Unidos e parte da Europa está impactando o Brasil?
Levitsky – Eu ainda não tenho certeza como podemos conectar o fenômeno Bolsonaro com outros populistas de direita, como (Donald) Trump (nos EUA), (Viktor) Orban (na Hungria), ou outros da Europa. A causa principal do avanço da direita nos países ricos é a diversidade. É uma reação à imigração por parte dos (cidadãos) brancos, de direita não-liberal.
Há um pouco disso no Brasil, mas é muito diferente.
Eu não colocaria Bolsonaro no mesmo grupo. Mas, ainda que não seja a mesma coisa, ele se identifica com isso, e você percebe um apoio transnacional à sua candidatura.
São ideias e práticas que 15, 20 anos atrás seriam rejeitadas pelo establishment e que agora estão se tornando aceitáveis. Meu maior medo é que violações de direitos humanos que tinham sido eliminadas na América do Sul possam se tornar aceitáveis de novo.

BBC News Brasil – Quais as principais diferenças entre o que se vê no Brasil e em outros países?
Levitsky – O Brasil passa por uma crise muito pior do que Suécia, França, Hungria ou Estados Unidos.
Nos Estados Unidos, você tem uma parcela muito grande da população que resiste ao fato de que a sociedade vai se tornar mais diversa etnicamente.
Mas o Brasil está sofrendo uma crise de, pelo menos, duas dimensões: a pior recessão na história do país e o maior escândalo de corrupção entre todos os países democráticos.
Eu acho que o avanço da direita no Brasil se deu porque o governo era de esquerda e é visto com o responsável pela crise.

BBC News Brasil – O senhor usa o termo “jogo duro constitucional” para definir a disputa política em contextos radicalizados. O que é exatamente isso?
Levitsky – “Jogo duro constitucional” é usar as instituições como arma política contra o seu oponente.
Usar a letra da lei de maneira a diminuir o espírito da lei. É fruto da polarização: quando os dois lados começam a temer e desprezar o outro, eles passam a lançar mão de qualquer meio necessário para impedir que o outro vença.
Hoje, toda nomeação para a Suprema Corte americana envolve jogo duro constitucional e o mesmo se viu no Brasil, durante o impeachemnt (de Dilma Rousseff), em 2016, e a exclusão da candidatura de Lula, em 2018.
Olhando para outros casos de colapso da democracia (Brasil nos anos 60, Chile nos anos 70, Espanha nos anos 30, Alemanha no começo dos anos 30), se percebe que, quando isso começa, tende a se intensificar e é muito difícil de ser parado.

BBC News Brasil – Há uma percepção do eleitorado brasileiro de que Fernando Haddad, do PT, e Jair Bolsonaro, do PSL, são lados opostos de uma mesma radicalização e que ambos representariam ameaças à democracia. O senhor concorda com essa visão?
Levitsky – Absolutamente não. Não há dúvidas de que integrantes do PT radicalizaram o discurso desde a crise de 2016. Eu acho que o impeachment foi um erro terrível por parte da centro-direita. O impeachment e a exclusão da candidatura de Lula, definitivamente, contribuíram para isso.
Mas o PT é um partido institucionalizado, estabelecido e democrático. Nasceu em 1979 e, por quase 40 anos, jogou dentro das regras democráticas.
O PT governou o Brasil por 14 anos e, se você olhar para qualquer medida de democracia, o Brasil se mantém igualmente democrático, se não mais democrático do que antes.
O PT respeita a independência da Justiça e da imprensa. As eleições sempre foram livres. Se você olhar para o registro do PT no poder, verá que há muito erros, como a política fiscal e os casos de corrupção. Mas (daí a) chamar o PT de chavista, ou de autoritário…

BBC News Brasil – Por outro lado, o PT diz que Bolsonaro é fascista…
Levitsky – Eu acho que isso é um exagero. Penso que ele é claramente autoritário (e não fascista).

BBC News Brasil – Os eleitores dos dois lados estão acusando os adversários de serem fascistas ou comunistas. O senhor acha que o voto está sendo decidido dessa maneira?
Levitsky – Não. Há dois tipos de voto no PT: seus apoiadores, muitos dos quais beneficiários dos governos do partido, principalmente no Nordeste, e muita gente que não gosta do PT, mas que está assustado com o Bolsonaro.
No caso do capitão reformado, algumas pessoas estão votando nele porque ele encarna um modelo de homem forte, porque ele é populista e porque acredita em Deus.
Agora, no segundo turno, muita gente está votando nele porque ele é anti-PT. São poucos os comunistas e os fascistas brasileiros.

BBC News Brasil – O senhor falou anteriormente em chavismo. A situação política e econômica da Venezuela tem sido usada como um exemplo negativo pelos eleitores do Bolsonaro, já que o PT apoia o regime de Nicolás Maduro. Qual dos dois candidatos o senhor acha que tem mais proximidade com o chavismo?
Levitsky – Sem nenhuma dúvida, Bolsonaro. Populistas podem ser de direita, de esquerda, ou de centro.
Hugo Chávez era de esquerda e Bolsonaro não é. Ele não vai implementar a mesma política econômica, mas é uma ameaça populista para a democracia.
Muito frequentemente, quando um populista chega ao poder, você vê rapidamente uma crise institucional entre um presidente e o Congresso, o Judiciário, a imprensa.
E isso leva ao colapso da democracia. É o caso de Hugo Chávez, de Alberto Fujimori (ex-presidente do Peru), (Juan Domingo) Perón (ex-presidente da Argentina), Rafael Correa (ex-presidente do Equador), Evo Morales (presidente da Bolívia) e é claramente o caso de Bolsonaro.
Haddad está longe do populismo. Você pode discordar das suas políticas econômicas, mas ele não representa um projeto populista.

Leia a continuação da entrevista aqui.

12 Comentários

  1. Está certíssimo o professor, concordo plenamente com ele, nossa Democracia está em jogo, mas o povo não esta entendendo nada, e nem vai entender, lamentável.

  2. Sugiro que ele mande um Twitter para o Trump. Sera que o presidente dos EUA quer 20 milhoes de pobres indo em sua direçao?

  3. mais um gringo fdp q vem meter o nariz aonde nao e chamado-deve ser mais um daqueles intelectuais de merda q apurrinham as ideias de Trump-

  4. E qual seria o conceito de Democracia que o intelectualoide esquerdoso tem? Aquela que vigora em Venezuela, presumo!!! Vá carpir um terreno, fessor!!!!

  5. Os Estados Unidos da América tiveram mais de 30 (trinta) militares como presidente, mão entendi o que esse professor quis dizer poderia explicar melhor

  6. Célia Nadir Anselmi Responder

    Concordo com tudo, menos na parte que ele explica sobre os ataques às instituições. Nessa parte, não foi o Bolsonaro que aparelhou o Estado, foi o PT. Todos os dias, constatamos assombrados o quanto o PT quase destruiu nossas instituições. Tentaram, inclusive, acabar com o nosso judiciário e quase queimaram a nossa Constituição. Não é raro ver a turma do PT colocando fogo na Bandeira Nacional. Sinto em dizer, mas o professor aí mirou o lado errado.

  7. Pela primeira vez Sergio, estou com você. Parabéns antes da paixão veio a razão. Seja mais um dos que buscam um Brasil verde e amarelo e um futuro melhor para nossos filhos e netos.

  8. Setah Chantecler Responder

    Vejam essa frase do tal profeçor de ravardi:

    “Haddad está longe do populismo. Você pode discordar das suas políticas econômicas, mas ele não representa um projeto populista.”

    Quantos sandubas de mortaNdela o profeçor de ravardi ganhou para fazer essa ode ao poste do presidiário bêbado?

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