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Alta confusão, baixas expectativas

Editorial, Estadão

Turbulência na Bolsa, dólar em disparada, insegurança nos mercados e piora das expectativas compõem o balanço econômico dos primeiros três meses de governo do presidente Jair Bolsonaro. Todas as projeções de crescimento foram revistas para baixo desde o início do ano.

O Banco Central (BC) cortou de 2,4% para 2% a previsão de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entidade também oficial, reduziu sua expectativa de 2,7% para 2%. No mercado, a mediana das estimativas bateu em 2,01% no último fim de semana, segundo a pesquisa Focus, atualizada semanalmente pelo BC.

Até o Ministério da Economia, responsável principal pelas finanças públicas e pela política de expansão dos negócios, baixou sua aposta. Segundo a conta revista, o PIB deverá avançar 2,2% neste ano, em vez dos 2,5% indicados no Orçamento-Geral da União.

O cenário de susto estava armado no mercado financeiro e de capitais, na quinta-feira de manhã, quando o BC e o Ipea divulgaram suas novas projeções para a economia brasileira. O dólar havia superado a cotação de R$ 4 no dia anterior, voltando aos níveis alcançados antes da eleição presidencial.

A instabilidade continuava ontem, nas primeiras operações, quando o BC entrou no mercado com um leilão de R$ 1 bilhão. Foi uma operação fora da rotina, destinada a corrigir uma situação cambial considerada anômala. O mercado comprou todos os dólares oferecidos e o cenário se tornou menos turbulento. Além da venda de moeda americana, pelo menos dois fatores contribuíram para baixar a agitação. O presidente da República declarou superada sua briga com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o PSL, partido do governo, fechou questão a favor da proposta de reforma da Previdência. No meio da tarde, o mercado de câmbio estava mais tranquilo, mas o dólar continuava na vizinhança de R$ 3,93, uma cotação muito acima dos níveis observados desde o fim de 2018.

Não é fácil prever a duração do comportamento pacífico anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro nem o instante de surgimento de novas grandes tensões no Executivo ou, mais amplamente, na Praça dos Três Poderes. Também é difícil dizer, neste momento, como e por quem as negociações entre governo e Congresso serão conduzidas e como se comportarão os filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Se as expectativas mais otimistas – e talvez irrealistas – forem confirmadas, as incertezas serão atenuadas e um avanço econômico mais firme será engatado. O resultado talvez seja algo melhor que a expansão de 2%. Se os problemas políticos e administrativos se repetirem, talvez nem o pífio crescimento hoje projetado seja conseguido em 2019. Nesse caso, o resto do mandato do presidente Jair Bolsonaro poderá ser comprometido.

O BC reduziu as estimativas de crescimento para todos os grandes setores. Para a agropecuária, o corte foi de 2% para 1%. Para o conjunto da indústria, de 2,9% para 1,8%. Para a indústria de transformação, o segmento mais importante por seus efeitos de irradiação e pela qualidade do emprego gerado, a revisão foi de 3,2% para 1,8%. No caso da indústria extrativa, a redução de 7,6% para 3,2% reflete, entre outros fatores, os efeitos do rompimento da barragem de Brumadinho. Para o setor de serviços, o corte da projeção foi muito pequeno, de 2,1% para 2%.

Do lado da demanda, o consumo familiar, ainda afetado pelo alto desemprego, deve crescer 2,2%, em vez dos 2,5% estimados no fim do ano.

O BC prevê inflação ainda bem comportada neste ano e nos próximos dois, mas isso dependerá, como já foi comentado em outros documentos, da manutenção de expectativas bem ancoradas. Expectativas favoráveis, como se lembra mais uma vez, poderão desaparecer, se o governo falhar na política de ajustes e reformas.

Também ontem, a Fundação Getúlio Vargas informou um recuo do índice de confiança do comércio para 96,8 pontos, o nível mais baixo desde outubro. Dificilmente o presidente poderá culpar a imprensa por qualquer dessas pioras. Talvez ele pudesse pensar um pouco sobre isso.

2 Comentários

  1. Doutor Prolegômeno Responder

    Confusão é para quem lucra com a confusão. O mercado tem investidores que lucram com o efeito manada da bolsa e do dólar, à custa da estupidez generalizada da sociedade. Salvo pela questão fiscal, que se resolverá ainda que em parte com uma reforma meia-sola da previdência, não há motivos para o salve-se quem puder. Num país governado pelas corporações de ofício estatais, ninguém com um pingo de cérebro acredita que haverá uma reforma abrangente da tal previdência. Vamos aos trancos e barrancos, como sempre viemos. O resto é conversa pra boi dormir e pra esperto ganhar dinheiro com a burrice nacional.

  2. Caro Fábio, tudo o que temos visto e ouvidos nesses últimos 90 dias, são previsões pessimistas dos economistas analistas de mercado e comentaristas políticos, com um só foco de desestabilizar o novo governo recém estabelecido. Tempestade em copo d’água. Que podemos dizer do Brexit, chegou o dia fatídico 29.03.19, sabidamente conhecido há mais de 3 anos. Povo ilustrado, culto, rico economicamente, decidiram que não desejam sair da comunidade européia. Essa saída era desejo da elite inglesa. O povo foi favorável no plebiscito, porém, agora mais ciente do que é o Brexit desejam manterem-se unidos a Europa. No Brasil que avança, está colhendo uma safra igual a anterior. Os supermercados abastecidos e a inflação controlada. Os leilões de privatização estão ocorrendo, todos com pagamentos de ágios significativos, nos portos, aeroportos e por último ferroviários. O governo federal encerrando atividades de empresas estatais deficitárias. Isso é contenção de despesas. Demissões e corte de apenas 20.000 colaboradores comissionados federais. Tem que cortar mais.O acerto nas medidas anti-crime começa a andar, e a reforma da previdência após as últimas articulações políticas tenderão a entrar nos trilhos, com aval do parlamento. Isso em apenas 90 dias do novo governo. Não foram propostas nos últimos 30 anos. As medidas econômicas demoram naturalmente 180 a 270 dias para dar retorno no sistema. Há necessidade de ter calma, tranquilidade e aguardar um dia após o outro. Atenciosamente.

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