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Hoje, 17 anos sem Jamil Snege

16 de maio de 2003. Há 17 anos, morria Jamil Snege. Um dos mais talentosos escritores que passou por este mundo. Leveza. Rapidez. Humor. Concisão. Precisão. Eis alguns dos ingredientes presentes nos textos que Snege produziu e nos deixou como legado.

Faz muita falta o Turco. Não só aos amigos. Jamil Snege produziu a literatura mais sofisticada que já se fez nesta área chuvosa do planeta. Ler seu livro “O jardim, a tempestade”, ainda é uma fruição maravilhosa do texto preciso com o que construía seu universo de circunstâncias e personagens paradoxais. Hoje é dia de reler a obra do Turco e senti-lo próximo pela sua arte.

Aroldo Murá G. Haygert

Sem compromissos cronológicos, visões — de 1960 a 2003 — de momentos para sempre memoráveis sobre aquele que só quis ser o que foi: paranaense, provinciano, universal, iconoclasta, underground (ou avant-garde?), crítico de seu tempo, cronista, contista, sociólogo, marquetólogo, publicitário, modelador de políticos, homem de espírito, amigo, genioso, genial, “pão-duro”, generoso. Enfim, o Jamil, acima e além da crítica literária. Do “Turco” se podia esperar quase tudo, ele não surpreendia. Só não conseguíamos entender bem — os amigos mais próximos, daquelas caminhadas noturnas, aprendizados peripatéticos pelo centro de Curitiba, começados em 1960 —, onde e quando ele achava tempo para estudar. Estudava pra valer, fomos descobrindo, e particularmente se embrenhava na etimologia das palavras. Era um atualizado em muitos saberes, com acompanhamento especial do que acontecia na literatura, a ficção importante no mundo todo.

Tinha uma espécie de PC imaginário na cuca: pediase- lhe o significado de um termo, que esclarecesse tal dúvida, lá vinha a resposta. Sempre acompanhada de um pigarrear, o som meio que preso na laringe, como que a disfarçar um certo recato, parecendo pedir desculpas por nunca ser apanhado em falta na matéria. Se, por acaso, flagrava uma estultice do interlocutor, não perdoava, colocava as coisas no lugar, de modo particular no pontificar sobre língua portuguesa. Mas não chegava a massacrar o pobre coitado, pelo menos por pecados contra a chamada norma culta. Não foi aluno brilhante no ginásio e no científico, pode riam testemunhar a irmã Sheila, o irmão Iberê e a octogenária dona Anita, a mãe, aquela velhinha que conseguiu sobreviver
aos muitos sustos e perplexidades que Jamil lhe impôs.

Aroldo Murá G. Haygert, disse dele que Jamil só quis ser o que foi: paranaense, provinciano, universal, iconoclasta, underground (ou avant-garde?), crítico de seu tempo, cronista, contista, sociólogo, marquetólogo, publicitário, modelador de políticos, homem de espírito, amigo, genioso, genial, “pão-duro”, generoso. Enfim, o Jamil, acima e além da crítica literária. Do “Turco” se podia esperar quase tudo, ele não surpreendia. Só não conseguíamos entender bem — os amigos mais próximos, daquelas caminhadas noturnas, aprendizados peripatéticos pelo centro de Curitiba, começados em 1960 —, onde e quando ele achava tempo para estudar. Estudava pra valer, fomos descobrindo, e particularmente se embrenhava na etimologia das palavras. Era um atualizado em muitos saberes, com acompanhamento especial do que acontecia na literatura, a ficção importante no mundo todo.

Tinha uma espécie de PC imaginário na cuca: pediase- lhe o significado de um termo, que esclarecesse tal dúvida, lá vinha a resposta. Sempre acompanhada de um pigarrear, o som meio que preso na laringe, como que a disfarçar um certo recato, parecendo pedir desculpas por nunca ser apanhado em falta na matéria. Se, por acaso, flagrava uma estultice do interlocutor, não perdoava, colocava as coisas no lugar, de modo particular no pontificar sobre língua portuguesa. Mas não chegava a massacrar o pobre coitado, pelo menos por pecados contra a chamada norma culta. Um tanto da memória do Turco está nos fragmentos snegenianos, extraídos de alguns de seus principais livros.

A seguir, dois excertos do livro “O grande verão da leitoa branca” para que você possa degustar a literatura do genial Snege.

Em busca de Rostropovich

Gosto dos outonos nublados e frios de Curitiba. Vista aqui do alto, do vigésimo andar, Curitiba lembra um pouco Buenos Aires, a Calle Lavalle, lembra um pouco Lyon, Bruxelas ou outra cidade européia que jamais conheci. Por um momento essa atmosfera me envolve a ponto de me convencer a vestir o casaco e descer até a rua, predisposto a saciar uma súbita fome intelectual por um bom livro, uma boa música, uma obra de arte qualquer. Li recentemente que Rostropovich reuniu em álbum suas principais gravações feitas entre 1950 e 1974, das Bachianas a Schumann e Beethoven, incluindo os dois concertos de Chostacovich. Eis o pretexto: procurar Rostropovich nas casas especializadas de Curitiba, embora saiba de antemão que será uma busca vã. Já imagino o ar de riso das moças que me atenderão, as consultas ao gerente, as desculpas, mas preciso manter a qualquer custo a atmosfera. Estou, afinal, numa capital européia — não é disso que a propaganda oficial sempre tentou nos convencer? Não duvido, portanto, de cruzar com o próprio Rostropovich e seu violoncelo no meio da Praça Osório, atrasado para o ensaio de dali a pouco na Escola de Música e Belas Artes do Paraná.Animado por tal perspectiva, ergo a gola do casaco e avanço. Pose de intelectual compenetrado, finjo não ver garotos cheirando cola, meninas se prostituindo, gente mal vestida remendando o frio com tudo o que havia no guarda-roupa, do plástico à lã sintética, das malhas ordinárias de náilon made in Taiwan.Fragmento extraído do livro Os verões da grande leitoa branca

Um dia sem ver a bela

Ei-la que ressurge entre nuvens de vapores caminhando pela borda da piscina. Escolhe uma cadeira próxima à minha, tira o roupão, estende a toalha, estira-se com um langor de gata e só então me serve um naco de pão de seu sorriso. Temos vivido assim, numa dieta de distâncias e sorrisos, sem palavras, pois tudo nos dizendo com os olhos. E que falta nos fazemos um ao outro quando à tribo já reunidos um de nós se atrasa.Hoje estamos realizando, pela primeira vez, a prova da piscina. Significa que vamos nos revelar os pequenos estragos que o tempo esculpiu em nossos corpos já maduros. Ela, mais nova que eu, uns sete ou oito anos; eu, mais velho que ela, uns dez ou doze anos, a julgar pela maneira como imagino que ela me veja. Mas não importa. Não preciso esconder nada dela. Ao contrário: exibo minhas pernas finas, a pele descorada, esses pêlos longos e duros que de uns tempos para cá começaram a nascer nos meus ombros. Gostaria que ela soubesse que três dos dentes com que lhe sorrio são removíveis e laváveis.Ela, por seu turno, me exibe no alto da coxa uma depressão lateral de pele luzidia, que suponho o resultado de uma cirurgia de colo de fêmur. E na perna oposta, logo acima do joelho, uma pequena rede de varizes que ela faz questão de massagear com ostensivo empenho. Depois empina os seios e se examina, reprovando um excesso que eu aprovo, como aprovo tudo nela.Já estamos irremediavelmente condenados um ao outro.

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