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‘A democracia se tornou refém de oligarquias’, diz Eloy Casagrande

Casagrande: “Todos somos políticos”Bem Paraná – Professor universitário, o candidato da Rede Sustentabilidade à prefeitura de Curitiba, Eloy Casagrande tem uma bem sucedida carreira acadêmica, com PhD em engenharia pela Universidade de Nottingham e prêmio da ONU para projetos na área ambiental. Ele diz que decidiu entrar na política justamente para devolver à sociedade as oportunidades que teve.

Para Casagrande, Curitiba que já teve fama de cidade inovadora, perdeu o bonde da história, com uma visão urbanística ultrapassada, em que o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUC) se tornando um mero “despachante” de projetos do prefeito. Em entrevista ao Bem Paraná, o candidato da Rede explica como as universidades e a ciência podem se tornar um instrumento fundamental para arejar a gestão pública da Capital paranaense, contribuindo com novas ideias e projetos que foquem não só na questão ambiental, mas em políticas de desenvolvimento econômico, social nas mais diversas áreas.

Bem Paraná – Se hoje fosse 1º de janeiro de 2021, e o senhor tivesse sido eleito prefeito, qual seria a sua primeira medida?
Eloy Casagrande – Primeira medida é reunir a equipe para conversar, e traçar a estratégia que a gente desenhou no plano de governo para Curitiba. Eu tenho uma característica muito especial de trabalhar em grupo em equipe, como tenho 20 anos na universidade trabalhado com grupos de pesquisa. A gente fazia um planejamento baseado sempre na visão sistêmica. Nunca só na visão específica de cada problema. E como nosso plano de governo é um programa que tem ações transversais a todas as supostas secretarias existentes. Não é um tema só de um secretaria. Então o plano estratégico vai ser fundamental para começar a trabalhar com aquelas propostas que a gente tem para Curitiba, principalmente mostrando que há muito tempo Curitiba não inova. Curitiba parou de inovar, apesar de toda a sua fama e modelo, de ser uma cidade diferenciada de outras cidades do Brasil com as suas qualidades, o que a gente tem visto do ponto de vista científico, técnico, analisando pelo ponto de vista acadêmico é de que muitas das coisas realizadas não são fundamentadas suficientemente na ciência. Não são, por exemplo, consultadas o suficiente com a comunidade e os especialistas. É muita decisão de gabinete. Se você for pensar do ponto de vista do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), o que menos tem sido feito ultimamente é pesquisa e planejamento. O IPPUC virou praticamente um ‘despachante’ de projetos do prefeito. Eu acho que tem que retomar essa questão, inclusive descentralizar a visão de urbanismo que é muito centrada em arquitetos e urbanistas, profissionais da área que estão ali há muito tempo e talvez já viciados com uma certa visão de urbanismo. E nós temos em Curitiba, é uma cidade universitária, temos vários centros de ensino, pesquisa que trabalham com urbanismo, arquitetura, com questões sociais, da saúde, e como eu sempre dentro da universidade tentei levar projetos para fora da universidade levando resultados para o poder público. Aliás foi um dos motivos que me levou a me candidatar a prefeito. Eu sempre fiquei um pouco frustrado com a pouca recepção do poder público em você levar esses projetos. Às vezes são teses de doutorado, mestrado que levou três, quatro anos em cima de um determinado assunto que tem muito mais fundamentação para trazer resultados melhores para a cidade e isso você não tem penetração no poder público.

BP – O senhor acha que o poder público aproveita mal as universidades?
Eloy – Muito mal. Aliás, a ciência no Brasil vem vivendo em um negacionismo muito grande ultimamente. Nós professores tivemos que sair para a rua no ano passado para se defender do governo. Tivemos cortes de pesquisas, bolsas, congelamento de salários, a mesma coisa que o poder municipal fez com os professores agora. O que o Greca fez? O Greca congelou os salários dos professores, retirou verbas do fundo de pensão dos servidores, e quando os professores foram reclamar ainda levaram bala de borracha. Então se você for tratar assim os professores, é melhor nem ser um gestor público. Todo mundo passa por uma sala de aula para chegar aonde chegou como profissional. E no Brasil a gente tem uma questão de pouco respeito ao conhecimento científico, à sala de aula, ao professor. E essa é uma bandeira muito forte que eu quero levar no governo.

BP – O que leva alguém com uma carreira acadêmica bem sucedida resolver entrar na política, uma atividade tão mal vista?
Eloy – É mal visto porque nós deixamos os malfeitores ocuparem esses cargos. A democracia se tornou refém de grupos oligárquicos, de famílias de políticos que você pode estudar a genealogia do Paraná e vai ver que são sempre os mesmos. E nós entregamos tudo isso para esse poder, e virou um grande oportunismo. E a política não é suja. Nós todos somos políticos, estamos no dia a dia fazendo política. Mas nós deixamos a política partidária tomar conta disso desta forma, com essa questão do nepotismo, por exemplo, da questão dos apadrinhados, de tudo isso. E eu vejo que há muitos profissionais com muita qualidade. E eu como professor quero dizer que eu tive sempre a visão da universidade extramuros. Tentar resolver os problemas da sociedade com esse foco. Eu trabalhei muito com extensionismo. Pegar meus alunos, seja de graduação, de pós-graduação, doutorado, mestrado, faz vinte anos que eu faço isso. E vamos encontrar um problema real e encontrar uma solução para esse problema. Então eu trabalhei em comunidades carentes, com a questão ambiental, com empresários, sempre focando na solução de problemas. E com isso consegui ser um representante da universidade em muitos fóruns. Eu trabalho com a questão climática, por exemplo, que é uma das preocupações principais que a gente tem hoje. Olha a estiagem que está acontecendo aí. A água é o fio condutor de toda a vida que existe, e o planejamento urbano tem que considerar isso. Nossos rios de Curitiba estão todos poluídos. Nós nos autodenominamos capital ecológica. Dentro da fundamentação científica isso é uma farsa. Não é porque nós temos uma grande área de arborização da cidade que nós vamos falar em cidade ecológica. Aí no nosso planejamento a gente tem esse foco de trabalhar muito mais o bairro, a casa social, a ecoquadras. A gente está colocando um programa que chama ecoquadras, ecobairros, e com isso você consegue também fazer uma ligação com os rios da cidade. A gente está visitando todos os rios da cidade. Fazendo uma caminhada pelos rios, estivemos recentemente na foz do rio Bacacheri até o parque. Depois ele segue para o Atuba. As cidades todas começam com os rios e a gente tornou os rios todos os esgotos da cidade. E aí você pode desenhar nesses rios parques lineares. Nós denominamos um programa chamado ‘Curitiba cidade jardim 2030’. Nesses parques lineares a gente pode conectar os bairros através de programas de casas de moradias sociais. Nós criamos um projeto chama “Unis” – unidades de inovação social, que estariam instaladas em cada bairro para ser um fomentador da visão de sustentabilidade do bairro. Trabalhando com os projetos das próprias construções das casas, nós chamamos de casas modulares, de baixo custo, termicamente melhores. Conectadas com energia solar em forma de cooperativa. Por exemplo, abastecimento de água. Nós temos um projeto de Curitiba ter melhores condições de não ficar só dependente das quatro represas que estão hoje com menos de 30% de capacidade: Piraquara I e II, Piraí e Passaúna. Curitiba não se preparou para isso, apesar da gente estar falando há 30 anos da crise climática. Ela viria de qualquer jeito. Pelos dados científicos, em 2024, já está batendo em nossa porta, a coisa vai ficar muito pior. Nós continuamos dependentes dessas quatro represas. Poderia buscar outro recurso, por exemplo, na bacia do rio Assunguí, há 60 quilômetros de Curitiba, onde existe a Escarpa Devoniana, nascentes, grandes reservas de água. E as casas têm que estar preparadas para usar melhor a água. Aí vem um outro projeto que são os sistemas de coleta de água de chuva, que é financiar para as pessoas porque isso também são políticas públicas. Agora a Sanepar descobriu que distribuindo caixas d´água, uma coisa tão básica, que as pessoas podem guardar a água. É um absurdo que no século 21 a gente ainda esteja vendo essas coisas, pois isso é planejamento urbano. Prevendo as situações.

BP – Como a ciência pode ajudar nisso?
Eloy – Aí que está a diferença de você trabalhar com a ciência, com precaução. Você olha as coisas antes de acontecerem e começa a se planejar. E não é planejamento de quatro anos. O mandato é de quatro anos, mas você tem que ver a cidade para daqui 10, 20, 40 anos. O que fez o Plano Agache, dos anos 40, para a gente ter essas ruas largas. O início do planejamento do Lerner para preparar a cidade um pouco melhor do que as outras no Brasil. Se bem que muitas coisas estão defasadas agora porque os outros que vieram atrás não deram sequência para isso. É um pouco do ponto de vista da sustentabilidade, que é o nosso partido, está no nosso manifesto, preocupando com as questões econômicas, sociais, mas nessa visão sistêmica. E aí entra educação, planejamento, você procurar ter a prioridade com as pessoas e não com o automóvel, por exemplo. Parece que a cidade está sendo desenhada para acomodar automóveis no seu centro. Nós temos uma frota hoje de 1,5 milhão de veículos. E 70% das emissões de gás carbônico na cidade vem desses automóveis. Como você vai tornar a cidade mais resiliente, preparada para as mudanças climáticas se você insiste nessa política. Quando não prepara a cidade para modais mais inteligentes de transportes, para parques lineares ligando os bairros, que as pessoas possam usar os serviços, casas mais planejadas. Essa diferença que a gente está colocando dos outros candidatos, dessa visão sistêmica. Eu sempre estudei em escola pública. Minha universidade eu fiz a PUC, estudando durante à noite e trabalhando durante o dia. Foi a única escola paga que eu fiz. Mas eu tive bolsa para fazer meu doutorado na Inglaterra, bolsa para fazer meu pós-doutorado em Portugal. Tive vários projetos financiados com dinheiro público. CNPQ, Capes. E isso tem que ser devolvido para a sociedade. Eu me sinto na obrigação de ter resultados desse desenvolvimento e devolver para a sociedade. Acho que isso é um compromisso de cidadão. Os impostos das pessoas que pagaram minha formação. Eu acho que eu posso ser melhor aproveitado não ficando apenas na sala de aula, mas também podendo levar meu conhecimento para resolver os problemas das pessoas.

Bem Paraná – O senhor acha que a população em geral está consciente da importância da questão ambiental ou está mais preocupada com questões imediatas, emprego e renda e vê isso, para usar um termo popular, como “frescura”?
Eloy Casagrande – Evidentemente, é uma questão psicológica. A pessoa está preocupada com aquilo que a está afetando. Então se pessoa está com fome, ela tem que ter um prato de comida na mesa. É óbvio isso. Nós temos uma grande falha no problema da educação ambiental. Nós teríamos que estar trabalhando nisso desde o início com as crianças para criar consciência ambiental. E aí você cria um cidadão preocupado com isso. O problema é que a gente só lembra disso no dia da árvore, quando vai lá plantar árvore na escola e depois esquece do resto. Eu defendo, aliás, existe uma lei federal que você tenha educação ambiental transversal. Que você sempre esteja falando. A questão ambiental é fundamental para a nossa sobrevivência. As pessoas sabem disso, mas não conseguem enxergar. Sem recursos naturais e sem usar de forma sustentável esses recursos, nós não vamos ter futuro. Então nós temos que trabalhar isso. O ensino público da prefeitura que trabalha com o fundamental, desde a primeira idade de alfabetização, é importante. Nós vamos dar um foco grande nisso. Nós fizemos no nosso plano de governo a construção em cada parque da cidade um centro de educação ambiental interativo. Que nem eu construí o escritório verde, um projeto modelo dentro da universidade de construção sustentável que foi pioneiro no Brasil com energia solar fotovoltaica conectada na rede. Foi premiado pela ONU. Eu vejo a mudança de atitude quando as pessoas enxergam na prática e conseguem ver os resultados, quanto eu economizo de energia. Quanto eu coleto de água de chuva e economizo de água. Isso são questões econômicas porque eu estou reduzindo o custo de operação e uso de toda uma infraestrutura de construção de uma cidade. Um dos projetos que temos como prioridade é implantar o IPTU verde de Curitiba, que já existe em mais de 50 cidades no Brasil. E o nosso secretário de Planejamento Urbano atual (Luiz Fernando Jamur) é contra o IPTU verde porque eu já debati com ele isso. É uma visão muito curta do problema. Porque o IPTU verde você incentiva as pessoas a utilizarem as tecnologias e os materiais sustentáveis em suas casas, e isso vai reduzindo o IPTU dele, e isso reverte em aumentar o mercado dessas tecnologias, consequentemente você vai aumentando emprego, renda.

BP – Como o senhor vê a forma como a atual gestão lidou com a pandemia do Covid em Curitiba?
Eloy – Volto para a questão da ciência, a precaução. Nós tínhamos conhecimento do que ia acontecer no Brasil, no Estado e em Curitiba. Nós tivemos alertas da Europa, da China, três meses antes de chegar aqui. A coisa estourou lá em dezembro, janeiro e nós sabíamos que ia chegar no Brasil. E sabíamos que quando chegasse ia ser uma mortandade muito alta que ia atingir os mais vulneráveis, como está sendo. Quando chegou nas favelas do Rio de Janeiro. Nas periferias das cidades. Porque nós não temos as condições básicas de tratamento. Não temos saneamento em muitos lugares. Tivemos que fechar escolas porque muitas escolas tem problemas de banheiro, água. Não tem nem como você fazer uma higiene adequada. E a atual administração, quando poderia ter percebido que haveria o problema, ela até criou um comitê de crise, esse comitê nunca foi reunido na verdade. Mais uma vez ficou a centralização. As universidades nunca foram chamadas para conversar sobre um planejamento para a cidade se preparar para isso. Nós temos especialistas com doutorado, pós-doutorado nessas áreas. O que nós tivemos que fazer nas universidades? Começar a desenvolver, apesar de fechada, teve um papel importante na pandemia. Tivemos que começar a desenvolver os respiradores que não existiam. Fabricar álcool gel, câmeras de desinfecção. Tudo planos de emergência. Se tivesse conversado três meses antes como que a gente ia agir, e aí muitas medidas foram tomadas de forma errada. Aquele abre e fecha da cidade deixou muita confusão. E o município, o gestor, ia conforme a onda. Se alguém pressionava, ele abria, se outro pressionava, ele fechava. Não passava a informação de maneira clara para a população saber como se comportar. Teve uma hora que ele culpou os velhinhos que estavam andando de ônibus. É absurdo isso. Quando todos os ônibus estavam lotados com trabalhadores. E aí tem uma segunda situação muito crítica do meu ponto de vista. Que é do socorro às pessoas. E nós tivemos aí quase R$ 200 milhões dirigidos para as empresas de ônibus. Mas e os mais vulneráveis? Podia ajudar 30 até 40 mil famílias que estavam necessitadas, os negócios estavam quebrando. Não teve nenhum suporte econômico robusto para sustentar essas famílias. No entanto, os empresários de ônibus foram beneficiados, não tiveram nenhuma cota de sacrifício. Deixando os mais vulneráveis ao ‘deus dará’.

3 Comentários

  1. Oligarquias dos partidos politicos, com seus caciques e morubixabas, que se autoproclamam candidatos de si mesmo, eternamente, como a fundadora de patronesse deste partido. Oligarquias de grandes empresários que vendem seus produtos disfarçados de naturebas…

  2. Geraldo Serathiuk Responder

    Robert Michells fala dos sistemas políticos controlados pelas oligarquias faz tempo. Da mesma forma Pareto e Mosca na antiga teoria das elites. Enfim conversa que começa nos tempos da democracia ateniense, que são repetidas para parecer descoberta nova.

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