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‘Causa ambiental e economia estão interligadas’, diz Mocellin

Mocellin (PV): “Cidadania é processo”Bem Paraná – O candidato do PV à prefeitura de Curitiba, professor e historiador Renato Mocellin, reconhece que para boa parte da população brasileira, a causa ambiental vem depois de questões mais urgentes ligadas à sobrevivência, como emprego e renda. Mas defende que o desafio é justamente mostrar para essas pessoas, que a política ambiental está diretamente ligada à economia e ao desenvolvimento. Para isso, afirma, a educação é o principal instrumento para despertar a atenção para a importância da preservação e uso sustentável dos recursos naturais.

Em entrevista ao Bem Paraná, Mocellin critica o que chama de “obras ostentatórias”, feitas com objetivo puramente eleitoral. E diz que falta transparência à atual gestão da prefeitura em políticas como a do transporte coletivo.

Bem Paraná – Se hoje fosse 1º de janeiro de 2021 e o senhor tivesse sido eleito prefeito, qual seria sua primeira medida?
Professor Mocellin – A minha primeira medida seria procurar demonstrar transparência em todas as minhas ações. Porque eu observo é que as pessoas prometem muito antes da eleição, sendo que o prefeito que vai assumir em janeiro, vai governar do que foi aprovado agora, a Lei Orçamentária Anual. Então você está engessado, você já tem o orçamento pré-fixado. Se você disser: ‘vou construir tantas creches e escolas à mais, vou asfaltar tantas ruas, você está sendo no mínimo demagogo. Então acredito que o prefeito deve zelar pela transparência. E eu quero formar uma equipe de alta qualidade técnica. Eu não sou médico, sou historiador. Então na área da saúde eu vou buscar profissionais sem vinculação política. Na questão ambiental, quero rodearme de ambientalistas. Eu acredito na democracia. Na construção coletiva de uma administração. E ter a humildade de, em muitas questões, vamos discutir. No Brasil, eu como sou de história há 40 anos, há um personalismo muito grande. Aquela liderança carismática, populista, que faz e acontece, quando, na verdade, a gente sabe que não é bem assim. Eu gosto muito de uma frase do Bismarck: ‘nunca se mente tanto como antes de uma eleição, durante uma guerra e após uma pescaria’. A minha visão de política. Nunca tive um cargo público. Sempre trabalhei na iniciativa privada. Acho que a política é tão importante que não deve ser deixada a cargo só dos políticos. Eu acredito na pluralidade. Eu gosto muito da democracia ateniense. Em Atenas, o sujeito só podia exercer um cargo público duas vezes. Se não fica sempre a mesma turma. Você dá a oportunidade de todos os cidadãos participarem da política.

BP – O senhor criticou o que chama de “obras ostentatórias”. O senhor acha que as últimas administrações tem gasto recursos públicos em obras de cunho eleitoral?
Mocellin – Sim. Por exemplo, a rua Coronel Dulcídio, que passa em frente ao prédio onde eu moro, não precisava asfaltar. Podia aguentar mais um tempo. Aí você diz: ‘ficou bonito’. Você tem a tua casa, gostaria de fazer uma obra que ia deixar mais bonita. Mas o teu cartão de crédito vai acusar daqui a dois, três meses. Eleitoralmente falando isso conta. Porque a pessoa diz: ‘ah o prefeito está trabalhando’. Agora você implementar uma escola em tempo integral em um bairro de Curitiba. Você tem que investir. E estabelecer, acho que falta também no Brasil, essa ligação com as universidades. Muitos jovens criativos e que estão ansiosos em colaborar. Nós temos que trazer a juventude e esse pessoal qualificado. Você traz a pesquisa que está sendo feita na ponta para o ensino fundamental. O sistema político que nós temos. O desejo do sujeito se reeleger ou de eleger alguém do seu grupo. Gosto muito de um ex-governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha Neto. Ele dizia: ‘ganhei eleições sem fazer promessas, e perdi eleições sem fazer promessas’. A Curitiba que a gente conhece, Teatro Guaíra, Biblioteca Pública, foi tudo o que ele fez. Ele não prometeu nada. Depois ele perdeu a eleição. Quer dizer, mas esse é a pessoa que eu acredito. Assim que eu vejo a política.

Bem Paraná – Vivemos hoje uma crise hídrica que atinge Curitiba e região metropolitana. Até que ponto isso é fruto do descaso com a questão ambiental e o que a prefeitura pode fazer em relação a isso?
Professor Mocellin – Nós devemos destacar que é uma questão nem brasileira, mas mundial. O que um prefeito como uma cidade de Curitiba pode fazer? Primeiro que não é só Curitiba, devemos ter políticas metropolitanas, porque a poluição de Araucária atinge Curitiba. A superpopulação de regiões de Colombo, por exemplo, o rio Atuba é poluído por isso. Então o que o prefeito deve fazer é uma política que englobe toda a região metropolitana, e o Estado também. E isso através de políticas pontuais, tecnicamente adequadas. E investir em educação. Eu acho que a publicadade em jornais, rádios e TV é necessária para a administração pública. Mas não a publicidade personalística, do prefeito, mas a publicidade sobre educação ambiental, para transmitir valores, cidadania, e não para fazer propaganda da gestão A ou B. É que nem o ônibus. ‘Entregamos tantos ônibus’. A planilha do preço da passagem, está lá que tem que renovar a frota. O usuário é que pagou aquele ônibus, não é do prefeito A ou B, é da população.

Bem Paraná – Como o senhor vê a forma com que a atual gestão lidou com a pandemia do Covid-19?
Mocellin – A gente deve tomar enorme cuidado para discorrer sobre isso, sob pena de parecer leviano. Vamos ser justos: os administradores públicos se depararam com uma situação inusitada. Desde a Gripe Espanhola lá em 1918 não tínhamos uma situação caótica como essa. E os governantes agiram das mais diversas formas. Por exemplo, na Coreia do Sul, na Nova Zelândia, a atuação foi corretíssima. Em Bergamo, na Itália, foi um desastre. Diziam: ‘pode trabalhar, não tem problema’. O Brasil teve tempo para aprender. As pessoas acham que aqui não vai acontecer. Quando estudei a Gripe Espanhola, em 1918, diziam que não ia chegar aqui. Não ia atravessar o Atlântico. E chegou. O Brasil deveria ter aprendido com esses países. Então como que a Coreia do Sul procedeu, a primeira-ministra da Nova Zelândia agiu? Curitiba deveria ter aprendido com o que aconteceu em Manaus, no Rio de Janeiro, São Paulo. As pressões sobre o prefeito foram enormes. Eu diria que nós fechamos um pouco cedo demais, e abrimos cedo demais. Se eu fosse o prefeito, iria reunir a nata dos infectologistas da cidade, pessoas que estudaram como a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, e iria propor a solução, o que é melhor para a cidade. De qualquer maneira, qualquer ação que fosse realizada teria consequências. Eu diria que uma das consequências, além das mortes, é a questão econômica. Como proceder o ano que vem para recuperar a economia? Eu diria que nós precisamos de um “New Deal” (programa de investimentos públicos adotados pelo governo do presidente Franklin Roosevelt, nos EUA, durante a grande recessão) miniaturizado para Curitiba, em que a gente venha a implementar recursos para a iniciativa privada, pequenos negócios. E também a questão tributária, você reduzir. Eu me reuniria com pessoas do setor e analisaria os prós e contras e como deveríamos agir. Eu diria que não foi a forma adequada que a prefeitura agiu. Tenho observado o aumento enorme de pessoas vivendo nas ruas. Seria leviano dizer que a culpa é do prefeito. É uma questão nacional, até mundial, em razão da crise econômica. Como resolver isso? Não é fácil.

BP – A atual gestão promovido a terceirização dos serviços de saúde. O senhor pretende rever essa política ou mantê-la?
Mocellin – Eu acho que nós não podemos diminuir a quantidade de UPAs. Fecharam algumas. E algo que eu sinto falta, você não tem ou tem apenas um local para o tratamento de pessoas com dependência química, drogadição. Um dos grandes problemas das grandes cidades é o tráfico e a drogadição de pessoas jovens. Se nós não implementarmos locais para que essas pessoas sejam tratadas, nós vamos ter que abrir mais penitenciárias. Na penitenciária feminina, por exemplo, boa parte das pessoas que estão lá, estão por causa do tráfico. A questão da violência contra a mullher, você deve também ter políticas públicas. Hoje, por exemplo, você tem o celular. Então a mulher que tem uma medida protetiva, ela deve ter como, quando está sendo molestada ou ameaçada, ter contato com a Guarda Municipal ou a polícia. Só de iluminar adequadamente as ruas você já diminui a criminalidade. E se você tem escola em tempo integral, você reduz também a possibilidade de jovens infratores.

Bem Paraná – O que o senhor acha do subsídio repassado pela prefeitura às empresas de ônibus?
Professor Mocellin – A regulamentação do transporte coletivo vem de longe. O Ney Braga que começou. Daí na década de 70, nós vamos ter na gestão do Jaime Lerner o expresso. E como algumas poucas empresas conseguiram se sustentar, porque os veículos são mais caros, os investimentos maiores, houve uma diminuição do número de empresas. E com isso você começa a ter um oligopólio em Curitiba. O prefeito Roberto Requião, na década de 80, ele teve demandas com essas empresas e conseguiu fazer com que elas se tornassem apenas permissionárias e a prefeitura tivesse o controle desse setor. Atualmente, se não me falha a memória, o contrato de licitação é de 2009, foi na gestão do Beto Richa. E naquela época, já, nós tivemos denúncias de que a planilha de custos era completamente equivocada, e que houve um cartel, investigado pelo Ministério Público na operação Riquixá, que investigou várias pessoas ligadas à Urbs. Eu acho que é preciso, assim que for possível, fazer um outro tipo de contrato. As coisas têm que ser claras, transparentes. O preço da passagem chegou a R$ 4,50, vamos colocar para a população o que cada centavo que faz parte desse R$ 4,50. Não é claro isso em Curitiba. Como não foi claro essa proposição de sair em socorro das empresas do transporte coletivo. ‘Ah, mas estão tendo prejuízos’. Nós vivemos em um estado capitalista. Se as empresas que já tiveram lucros têm prejuízo, que tenham. Por que socorrer? Por que não socorrer o dono do restaurante da esquina que não pode vender mais porque teve que fechar, despesas trabalhista. Ou somos capitalistas ou não somos. Então daí estatiza. Tem que priorizar. Pegou muito mal você alocar esses recursos para quem já tem e deixar de lado outros setores. Eu não faria isso, de forma alguma.

BP – A gente tem a impressão que a população até dá atenção à questão ambiental, mas ela está mais preocupada com questões mais imediatas: emprego, renda. Como conciliar essas duas questões?
Mocellin – Você tem toda razão. Porque para muitas pessoas a questão ambiental não tem importância. Tem pessoas que acreditam que a terra é plana, que não acreditam no efeito estufa. Então nós vivemos uma era em que as ‘fake news’ têm feito estragos imensos. Por isso que eu acho que a educação, principalmente de crianças, no que tange a questão ambiental, é de grande relevância. Eu não tenho a ilusão de mudar a cabeça de pessoas que acham normal a caça, natural você poluir um rio desde que aquilo possibilite 30,40 empregos para aquela comunidade. Só que nós devemos pensar no médio prazo. E quando a gente observa o que está acontecendo na Europa, há um consumidor cada vez mais preocupado com questões ambientais. Tem aqueles famosos “Rs”: reutilizar, reciclar, reduzir. Poderia ter mais dois. Um deles é refletir, não só sobre o que você está fazendo, como você recusar. Há uma arma que eu acho, na história, fantástica, e o Gandhi usou muito bem na Índia é o boicote. Se uma empresa tal não está cumprindo a legislação trabalhista, não tem compromisso com o meio ambiente, não compro. É preciso uma reeducação. O processo da cidadania é um processo em construção. No Brasil nós estamos despertando agora para essa questão. E o grande desafio para nós do PV é mostrar que a questão econômica está ligada à ambiental. Quando você fala em uma sociedade solidária, você fala como uma sociedade que não é consumista ao extremo. Sou um admirador do Papa Francisco: ‘Louvado seja o senhor’. É a primeira encíclica sobre a questão ambiental. Onde ele estabelece a relação entre a questão ambiental, a concentração de renda, as injustiças que nós temos. No dia de São Francisco, ele lançou mais uma encíclica sobre a questão da fraternidade. Eu acredito que essas questões estão ligadas. Ocupar um espaço na política para dizer isso é de fundamental importância. Se isso vai dar resultado eleitoral, não sei.

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