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Ser À Esquerda x Ser De Esquerda, segundo Magal

Artigo de Magal, Ser À Esquerda x Ser De Esquerda

Não é a Direita que vai dizer à Esquerda o que ela deve fazer.
Não é o establishment, o estamento burocrático que determinarão a agenda aceitável pela “beatiful people”, rotulando tudo fora disso como radical, extremista.

“A esquerda precisa fazer autocrítica” tornou-se o bordão incessante daqueles que pretendem constranger as correntes progressistas do convívio com seu núcleo essencial, como se tivessem algo de que se envergonhar e, ainda mais, a repudiar.

Tal esforço não carece de esperteza e malícia calculadas.

Pois se a esquerda tem mea culpa a fazer, isso compete a ela mesma e não nos termos que seus detratores a impelem, procurando provocar um tipo de “corrente sanitária” para a qual os preocupados com um bom comportamento autorizado e com o “bom-mocismo” de plantão corram dizer: “eu não sou assim”.

Nesse processo, empurram a militância sugestionável para longe do Partido (e agenda) dos Trabalhadores e para pautas convencionalmente aceitáveis por quase todo mundo. “É aqui que deixamos vocês atuar, senão, serão taxados de petistas ou (oh! o horror) comunistas”.

Infeliz e indiscutivelmente isso tem funcionado.

Em 1920 Lenin já identificava um infantilismo inerente nas esquerdas, enunciando um sem número de comportamentos que hoje ainda se repetem principalmente fora dos períodos de superioridade eleitoral (que é, em última linha, ainda a disputa por dentro da estrutura formal burguesa e só uma das formas de luta).

No que julgo ser o cerne dessa crítica, acusa os que querem separar os chefes revolucionários da massa, considerando inúteis os partidos políticos: “negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária (…) equivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da burguesia”.

Se fosse diferente do que diz Lenin, a política progressista seria uma mera questão de agendas, não necessitada de mecanismos, movimentos sociais e meios de poder. Um movimento só vai fazer aquilo que tiver o poder de fazê-lo.

E, entenda: a tentação de correr para agendas gerais de sujeito indefinido, por melhor que sejam em si mesmas, ainda é um modo de subscrever a lógica formal burguesa, esperando aprovação convencional.

Nesse mesmo sentido, também o combate à moral tradicional, num esforço muitas vezes focado em chocar – é apelo apenas a estética transgressora, sem atuar nos meios de poder material.

O mercado e a lógica do poder tranquilamente absorverão e se adaptarão a regras mais rígidas de produção, a fiscalizações ambientais , a venda de pornografia, de comida macrobiótica, de carros elétricos, à proteção de animais, venda de roupas de estética transgressora em contraste ao terno bem comportado, etc., se ainda for deles o controle formal das regras dessas relações. E disto tudo puderem lucrar e se beneficiar.

Marx exigia uma transformação drástica para passar do “velho mundo para o novo”, obtida através de um Movimento Revolucionário: permitiria derrubar instituições e libertar a classe oprimida da miséria (Drecke). Mas Marx não queria criar primeiro o “povo eleito” e só então fazer a revolução: a criação desse novo homem é resultante da Experiência da Revolução. Da vivência da Práxis, da unificação da teoria e da prática NA prática.

Isso, por definição, exclui a opção da mera adoção de agendas influentes da hora, sem romper com as instituições formais, atuando desde uma instituição própria.

Um “feel goodismo” de sentir-se DE esquerda, com pautas legitimidades pelo poder de curso, sem participar da tomadas dos meios de ação DA Esquerda.

O método consiste em dois passos: repudiar o líder visível da esquerda e rejeitar a necessidade da estrutura e liderança do partido.

Que instituições cairão dessa maneira???

EU ESCOLHERIA A ESQUERDA SE A ESQUERDA NÃO TIVESSE ME ESCOLHIDO

O advento da esquerda é fruto do esforço de compreensão da dinâmica das diferenças sociais, das desigualdades e, principalmente, das relações materiais de poder consequente desse estado de coisas e no que se alicerça.

Não foi pra salvar a natureza, não foi pra proteger os animais. Embora isso tudo seja bom em si mesmo e deva ser feito, não é uma pauta que vá essencialmente contra ou tenha qualquer conflito ontológico com a direita e os donos do poder. Eles também podem fazer isso a seu modo.

A implantação de uma nova agenda, de uma mudança da base nominal de valores, de nada mudará o quadro que impeliu o surgimento do MOVIMENTO se não for uma mudança das relações de poder: quem as possui e como as exerce.

Isto posto, não haverá transformação social se a agenda não for conduzida pela Vanguarda (com V maiúsculo, conceito descritivo), a entidade capaz de, como Lenin insistentemente reiterou, concentrar e colocar sua dinâmica no lugar do poder burguês formalmente constituído.

A esse compromisso que entrego a minha vida, virando as coisas para o Mundo, como se essa missão compartilhada tivesse tanto sido escolhida por mim e tivesse me escolhido.

Isso é estar NA Esquerda: participar de um mecanismo de ação que vai exigir o que você desejar dar a ele.

Movimento pelo qual você renunciou aos prazeres e benefícios pequeno-burgueses classistas, ao julgamento de conduta e com o qual trabalha pela extinção do presente Estado de Coisas. Situação esta onde ainda existem tantos miseráveis desiguais – uma lógica formal jurídica de poder, que convive tranquilamente com a mera estética revolucionária de aderir a pautas influentes da hora, contanto que não mudem sua estrutura.

Somos nós que saberemos onde e como atuar, não para satisfazer a burguesia com um disfarce de luta que só serve, em última linha, para legitimar o modelo com um teatro de disputa.

E se você me acompanhou até aqui, compreende que não preciso de você só em 15 de novembro.

Vejo você dia 16 em diante, nas ruas, nas esquinas, nas calçadas, nas ondas do rádio, ao lado do POVO, marchando para o que ainda nunca existiu.

Magal

Curitiba, 11 de novembro de 2020.

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