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‘A melhor forma de enfrentar a violência do latifúndio é lutando
pela democratização da terra’

MST – 15 anos após o assassinato de Jaelson Melquíades, dirigente Sem Terra em Alagoas, trabalhadores e trabalhadoras rurais seguem cobrando justiça e denunciando a violência no campo alagoano.

Em entrevista, Débora Nunes, da coordenação nacional do MST, destacou o papel da luta cotidiana do Movimento no enfrentamento à violência e a impunidade no campo.

“O MST segue organizando os trabalhadores e trabalhadoras, entendemos que a melhor forma de enfrentar a violência do latifúndio é lutando pela democratização da terra, produzindo alimentos saudáveis e lutando por condições para o povo permanecer no campo com dignidade”, comentou.

O dia 29 de novembro, Dia Estadual de Luta contra a Violência e a Impunidade no Campo e na Cidade, será marcado em todo o estado de Alagoas por uma série de ações do Movimento em memória ao Jaelson, que tem seu assassinato ainda sem respostas pelo Poder Executivo e Judiciário.

“Estabelecemos o dia 29 de novembro como uma data para memorar, mas acima de tudo cobrar o fim da violência e da impunidade, na luta para que a terra seja garantida como um direito ao povo que precisa dela para viver e produzir alimentos saudáveis”, ressalta Nunes.

Dirigente do MST na região de Atalaia, Jaelson teve sua morte fruto de um consórcio do latifúndio da região e a conivência de autoridades políticas da região, sendo assassinado numa emboscada armada, surpreendido por pistoleiro quando se deslocava de uma atividade.

Confira a entrevista completa com Débora:

Passados 15 anos do assassinato de Jaelson Melquíades, em que situação encontra-se o caso na justiça?

O que temos de informação até hoje é que um assassino teria sido preso, mas nem sabemos se está cumprindo a pena e se teria elucidado acerca dos mandantes.

No entanto, questões fundamentais como: Quem mandou matar Jaelson? Quem integrava o consórcio de donos de terras, políticos e autoridades que tinham interesse em colocar um fim no MST na região? Quem seriam os grupos que sentiam-se prejudicados com a organização dos trabalhadores e trabalhadoras no município de Atalaia?  Continuam sem respostas por parte do executivo e do judiciário em nosso estado, mesmo sendo de conhecimento de parte da sociedade.

Atalaia é um território onde o conflito pela terra é presente na história da região, como essa realidade tem se materializado nos dias de hoje? De que maneira o MST no município tem feito enfrentamento e denunciado à violência e as ameaças nesse período?

Sim! Atalaia já ocupou lugares de liderança em conflitos por terra. Esse é um traço histórico e quem vem desde Palmares. Como em nosso país, Atalaia tem famílias e grupos que se apropria de terras, que cerca e que a fazem suas, e para isso usa da violência: intimidando, ameaçando e matando. Nos últimos 25 anos foram três assassinatos de trabalhadores rurais. Todos impunes!

Essa situação é agravada no contexto atual, pois temos um governo que elegeu os movimentos populares de luta pela terra como inimigo, em especial o MST, e desta forma estimula explicitamente a violência e o conflito em nome do direito “sagrado” à propriedade privada, negando, inclusive, preceitos e direitos constitucionais como a função social da terra, direitos fundamentais, dignidade humana e a vida.

Então, com essa sensação de liberdade para violentar e matar, aumenta ainda mais a ofensiva sobre os trabalhadores. Contudo explicita também as profundas contradições: enquanto tem muita terra nas mãos de poucos, tem muita gente sem terra, sem trabalho e sem condições de existência.

Nesse sentido o MST segue organizando os trabalhadores e trabalhadoras, sejam os desprovidos de terra, sejam os que já têm terra, pois entendemos que a melhor forma de enfrentar a violência do latifúndio é lutando pela democratização da terra, produzindo alimentos saudáveis e lutando por condições para o povo permanecer no campo com dignidade.

Dados do relatório da CPT revelam que o número de conflitos no campo no primeiro ano de gestão de Jair Bolsonaro foi o maior dos últimos 10 anos no país. Como essa política de ataque ao campo tem se expressado em Alagoas?

O presidente da república estimula a violência explícita, mandando “donos de terras” receberem os sem-terra armados. Mas além disso, a política do governo é de destruição da Reforma Agrária.

Aqui em Alagoas sentimos isso na paralisia total da Reforma Agrária. Não têm mais vistorias ou qualquer processo para desapropriar terras e assentar as famílias acampadas. Isso faz com que novos despejos de famílias sejam solicitados à justiça, famílias que estão há anos em acampamentos, algumas há mais de duas décadas.

Tudo volta para a tentativa de privatização das terras públicas que foram reformadas sem que o Estado, através do INCRA, tenha cumprido suas obrigações, garantindo as condições necessárias para a viabilidade dos assentamentos: água para consumo humano e para produção, estradas, infraestruturas sociais e produtivas, o crédito, moradia e tantas outras políticas que são essenciais.

A ofensiva segue com reversões em processos de desapropriação, a exemplo do Assentamento Roseli Nunes, que após 17 anos, as famílias assentadas se veem com a possibilidade de serem despejadas.

Há 15 anos o MST realiza, em memória a Jaelson Melquíades, o Dia Estadual de Luta Contra a Violência e a Impunidade no Campo e na Cidade. O que será realizado esse ano simbolizando a data?

Estabelecemos o dia 29 de novembro como uma data para memorar, mas acima de tudo cobrar o fim da violência e da impunidade, na luta para que a terra seja garantida como um direito ao povo que precisa dela para viver e produzir alimentos saudáveis.

Nesse ano de 2020 temos limites impostos pela pandemia que, principalmente após as eleições, voltou a ser pautada pelos grandes meios de comunicação, mas que nunca deixou de matar cotidianamente o nosso povo. Então não faremos grandes atividades de rua, massivas, pois temos responsabilidade com isso, mas estaremos fazendo diversas atividades que trazem essa simbologia da memória, da continuidade da luta do Jaelson e da Reforma Agrária enquanto vida.

Vamos plantar árvores, fazer doações de alimentos a quem passa fome, denunciar com faixas, ocupar as redes sociais e realizaremos atos ecumênicos em nossos acampamentos e assentamentos.

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