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Realidade se impõe e Bolsonaro
tenta salvar popularidade

O imbróglio na mudança de comando do Ministério da Saúde acontece em meio ao pior momento da pandemia da covid-19 no Brasil. Com quase 300 mil mortos e o sistema hospitalar colapsado, o país teve, apenas nesta terça-feira (23), 3.351 óbitos pelo novo coronavírus.

Para entender os desdobramentos políticos da conturbada mudança no Ministério da Saúde, a agência de notícias Sputnik Brasil ouviu Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Para a cientista política, a confusão na mudança do comando da Saúde é mais um sinal da “incapacidade” do governo federal de lidar com as atuais crises do país. Para Sousa Braga, essa incapacidade já estava demonstrada na postura negacionista e anti-ciência do governo Bolsonaro, além da aposta errada de que a pandemia não teria efeitos graves.

“Eles [os líderes do governo] começaram toda sua participação e envolvimento para tentar resolver essa questão de uma forma a esperar que fosse algo muito menor, e não foi. A gente está vendo aí essa subida imensa de mortes por dia e estamos chegando a algo realmente bastante assustador, e agora assim eles terão que tomar medidas contrárias àquelas estratégias que eles estavam adotando desde o início”, afirma a professora.

A cientista política acredita que a mudança na Saúde foi fruto de pressão do chamado Centrão, a direita fisiológica que reúne diversos partidos políticos no Congresso Nacional. Apesar disso, Sousa Braga ressalta que a pressão popular também exerceu um papel na mudança, que cresce conforme a crise sanitária se aprofunda.

“Isso tudo também influencia. Quanto maior o número de mortes, quanto maior a dificuldade dos estados darem conta, com os serviços que eles têm hoje, da população afetada pela doença, mais o governo vai flexibilizar e vai adotar medidas para mostrar que sim, que agora está atuando, que está fazendo o máximo possível de ajuda. Então, a saída do Pazuello vem também nesse sentido”, aponta a professora.

Em meio à mudança na Saúde circulou a possibilidade de criação de um novo ministério para ser comandado por Pazeuello, o que lhe daria direito ao foro privilegiado. O general está sob investigação por suposta negligência na gestão da pandemia. Apesar disso, a criação de uma nova pasta não foi adiante e, conforme publicou o jornal O Estado de São Paulo, Pazuello deve ser indicado para a chefia do Programa de Parcerias e Investimentos (PPI).

Para a cientista política, a tentativa de proteger Pazuello também afetará negativamente a visão da população sobre o presidente e o governo, com exceção do grupo que ela classifica como “fanáticos”, que apoiam Bolsonaro em todas as situações.

“Essa ideia, de proteger o Pazuello e mantê-lo no Planalto, claro que afeta a situação política do governo. A leitura que a população vai fazer é que, de fato, ele só está agindo para justamente tentar ludibriar, enganar a população de que está fazendo alguma coisa”, afirma.

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