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O “vírus chinês” de Guedes e o alinhamento automático com o risco


Por Marcelo Ninio,
em O Globo

Quando parecia que os ruídos nas relações do Brasil com a China haviam sido abafados com a demissão do chanceler Ernesto Araújo, Paulo Guedes volta a ecoá-los. Ao dizer que “o chinês inventou o vírus”, o ministro da Economia confirmou que persiste no governo brasileiro um alinhamento mental automático não só com os Estados Unidos, onde a teoria conspiratória foi amplamente explorada pelo ex-presidente Donald Trump, mas com o desconhecimento sobre o que acontece no mundo.

Chamar o vírus Sars-CoV-2 de invenção chinesa, mesmo numa reunião a portas fechadas, significa corroborar uma tese especulativa e ideológica, já que não tem comprovação científica, e alimentar um preconceito que já levou a vários ataques sinofóbicos nos EUA e em outros países. Além disso, produz um atrito desnecessário com nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de vacinas contra a Covid-19. Vacina, aliás, que Guedes não relutou em tomar. O alinhamento, é bom que se diga, é mais com o trumpismo do que propriamente com os EUA. Dias após tomar posse, o presidente Joe Biden condenou o uso de termos como “vírus chinês” e reconheceu o papel dos EUA no aumento da sinofobia.

A cada declaração hostil do Brasil à China, ressurgem inquietações sobre impactos na relação comercial, principalmente entre os exportadores de commodities que têm na China o seu maior mercado. Mesmo entre os importadores, menos vulneráveis a turbulências, o receio com interrupções existe. Rodrigo Giraldelli, CEO da China Gate, empresa especializada em importação da China, conta que sempre que há ruídos na relação clientes ligam preocupados perguntando se declarações negativas do governo provocarão sanções de Pequim. Até hoje isso não aconteceu, diz ele.

— Voamos abaixo do radar. Estamos fora do fogo cruzado político. O que mais afeta quem importa da China são os preços do dólar e do frete.

Ambos, aliás, dispararam em 2020, para prejuízo dos importadores. Na contramão de outras moedas, o real se desvalorizou frente ao dólar, segundo analistas principalmente devido à desconfiança com o governo Bolsonaro e a equipe econômica liderada por Paulo Guedes.

Mesmo que tenha sido apenas “uma frase infeliz”, como tentou se retratar Guedes depois que seu comentário foi divulgada, ela parece ser mais um ato falho que revela uma desconexão com a realidade e com os interesses do Brasil. Repetir a alegação de que a China criou o vírus, difundida sem provas pelo governo Trump, é entrar em um terreno minado com a diplomacia chinesa, e Guedes deveria saber disso. Não é de hoje que causa espanto entre pessoas com experiência diplomática o desinteresse em relações internacionais de alguém que comanda uma das maiores economias do mundo.

Em Pequim o governo chinês tem evitado o confronto com o governo brasileiro, numa postura de comedimento estratégico. As reações aos comentários hostis ao país têm ficado a cargo dos diplomatas chineses no Brasil, principalmente o embaixador em Brasília, Yang Wanming, que já se envolveu em alguns embates nas redes sociais com a ala ideológica do governo. Num deles, no ano passado, Ernesto Araújo chegou a pedir a cabeça de Yang a Pequim, que respondeu com um rotundo não.

Quando houve atraso no envio para o Brasil de insumos chineses para as vacinas, o embaixador chinês virou destino de uma romaria de políticos em busca de ajuda, enquanto Araújo hoje está encostado no Itamaraty. Ontem, após a declaração de Guedes vir a público, Yang lembrou numa rede social qual o país que tem mais a perder com atritos desnecessários. Sem mencionar Guedes, ressaltou que a China é o principal fornecedor das vacinas para o país, “que respondem por 95% do total recebido pelo Brasil”.

Na dúvida, é melhor para o Brasil que o governo deixe as relações com a China nas mãos da diplomacia profissional. E que siga a receita que o chanceler Carlos França sugeriu hoje na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados ao falar da melhor ação internacional no combate à pandemia: mais solidariedade, menos ideologia.

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