Brasil

CPI na encruzilhada

Alvaro Gribel

A CPI da pandemia chegou a uma encruzilhada com os depoimentos dos ex-ministros Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello. Os dois quebraram o compromisso de dizer a verdade, mas saíram impunes da comissão. Seguiram a mesma linha do ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten. O que seria a pior semana para o governo desde o início das investigações se transformou em uma vitória da estratégia bolsonarista.

Eduardo Pazuello sempre faltou com a verdade enquanto ocupou o posto de ministro da Saúde. Ao lado de Bolsonaro, reafirmava as falas do presidente. Nas coletivas de imprensa, mudava números e fazia promessas que sabia que não iria cumprir. Nas reuniões com governadores, indicava apoio do governo federal, ainda que depois fosse desautorizado, como no episódio da carta de compromisso para a compra de vacinas do Butantan.

O que se esperava da CPI era que o general se sentisse ameaçado para contar o que sabe. Ao contrário, com o habeas corpus no STF e a decisão do presidente da Comissão, Omar Aziz, de recusar voz de prisão a Wajngarten, o ex-ministro contrariou fatos, a ponto de afirmar que nunca recebeu ordens de Bolsonaro em nada relacionado à pandemia. Ao adiar o seu depoimento por duas semanas, alegando contato com dois militares infectados por Covid, o general pôde mapear as perguntas e se preparar para as respostas.

O depoimento ficou mais fácil pela postura do relator Renan Calheiros. Ele tem sido protocolar nos questionamentos e poucas vezes se permite o direito ao contraditório. Já Omar Aziz chegou a ameaçar o ex-ministro de que faltar com a verdade teria consequências. Mas ele ficou em situação complicada ao poupar Wajngarten. Se, por um lado, evitou a escalada da polarização, por outro, abriu o precedente para que os governistas fiquem à vontade. Por tudo isso, Pazuello, até a hora em que passou mal, preferiu mentir a exercer o seu direito de ficar em silêncio.

Os senadores da base bolsonarista estão em minoria — são apenas quatro dos onze titulares —e carregam o peso dos 441 mil mortos desta pandemia. Mas isso não terá qualquer efeito sobre a comissão se os depoentes puderem distorcer a realidade. O grupo dos chamados sete senadores de oposição e independentes já pensa no uso de acareações. De algum modo, a estratégia atual terá que ser revista, sob pena de a CPI se transformar em um teatro para a narrativa do governo.

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